Espaço do Diário do Minho

“Doces” tempos

23 Mai 2022
Narciso Mendes

Olho para as crianças de hoje e, apesar de terem uma vida pela frente, fico com imensa pena delas. E porquê? Perguntar-me-ão. Porque não conceberia, apesar da abundância atual, de ter uma infância diferente da que tive. Pois apesar de ter nascido numa família modesta nunca senti falta de amor, carinho e atenção dos meus saudosos pais. De ir crescendo em paz e sossego, sem grandes preocupações. Sabendo que eles estariam ali para me apoiar e aconselhar sobre o que seria melhor para mim. Apercebendo-me, apesar da tenra idade, das canseiras e sacrifícios que enfrentavam para educarem os filhos dentro dos parâmetros que os pais deles, em outros tempos, lhes transmitiram.

Apesar de, nessa altura, muitos adultos acharem que não se sentiam livres no país eu – nos meus tempos de meninice, nascido três anos após o fim da 2.ª guerra mundial, numa pacata aldeia do Minho – não só não me apercebia de tal pormenor, como nem ligava a essas coisas da política, mas apenas às de dar asas à minha imaginação e procurar ser feliz.

Devo dizer que – sem me meter em trapalhadas – frequentei a Instrução Primária, a catequese, o escutismo e outros organismos católicos de que muito me honro. Sem que as figuras dos governantes, de então, penduradas na parede da sala de aula alguma vez me tivessem incomodado, tirado o apetite, o sono, ou me deixassem traumatizado como alguns hoje dizem ter-se sentido. A única coisa que me interessava e a todos os outros que comigo partilhavam a escola, era disfrutarmos da aula e combinarmos, no recreio, as brincadeiras e peripécias para a parte da tarde.

A escola da minha infância era das nove horas às treze e o resto do dia tinha-o por minha conta, já que os de mais compromissos eram ao sábado e ao domingo. Enfim, uma beleza. Era brincadeira a toda a hora com os meus companheiros, sem vigilantes e livre dos perigos que espreitam sobre a miudagem de hoje. Que o diga aquele Campo d’Aviação e arredores até ‘Penadouro’ e ‘Gasparinho’, junto à margem do Rio Cávado em cujo caudal – de águas cristalinas e calmas – muitas das vezes nos banhávamos no verão. Ah, se eu tivesse uma amostra desse puro tempo de alegres gargalhadas e correrias com os pés descalços, por entre campos e bouças, para mostrar à criançada de agora!

Brinquedos? Eram ao que resultavam da nossa habilidade, cujos principais eram: o pião; o carrinho de rolamentos; a roda e o guiador; o avião feito de pau; o barquinho em cortiça; a bola de trapos, etc. E as meninas tinham a boneca de pano com cabelo feito de estopa, ou barba de milho; a corda de saltar, etc. E para além disso, jogávamos juntos a macaca, o esconde-esconde, o bom barqueiro e outros. Tudo vivido sem stress e numa paz perfeita. Quais telemóveis, tabletes ou computadores? Isso, graças a Deus, ainda não havia sido inventado. Caso contrário, eramos para aí uns infelizes, deprimidos e a caminho do psiquiatra, ou psicólogo, como hoje acontece.

Até os breves namoricos fluíam com “doçura”. Quer fosse nos intervalos dos atos religiosos, no adro da Igreja, ou sempre que podíamos contactar com as raparigas lá da terra. Tudo estava temperado como o sal na comida: com muita ingenuidade e um anseio enorme em descobrirmos o que até aí não sabíamos acerca delas. Havendo como que uma explosão de ternura sempre que partilhávamos segredos, ou – por entre juramentos e inebriantes odores infantis – lhes roubávamos um beijo na face. Sem qualquer espécie ditadura de género a povoar as nossas mentes.

Saudosismo? Quero lá saber. Isso, em nada me afeta nem àqueles que eram “doces” tempos que não voltam mais. De facto, os de hoje – comparados com os da minha meninice – são de extrema complexidade. Em que inúmeras crianças vivem sopeadas por entre pais separados e irmãos oriundos de outras cepas, numa baralhada familiar que em nada beneficia o seu equilíbrio emocional. E, para além disso, existem perigosos meios capazes de lhes roubarem o seu bem mais precioso: a inocência.

 



Mais de Narciso Mendes

Narciso Mendes - 4 Jul 2022

“Todo o mundo fala sobre como deixar um planeta melhor para os nossos filhos. Na verdade, deveríamos tenter deixar filhos melhores para o nosso planeta. (Clint Eastwood, ícone do cinema)”. Só não está elucidado quem não quer, acerca do premente esforço que os decisores políticos de alguns países estão a tentar levar a cabo em […]

Narciso Mendes - 27 Jun 2022

Porque será que só os defensores da vida pugnam por mais e melhores cuidados paliativos e continuados, enquanto os da eutanásia quase omitem falar nisso? Não se lhes ouvindo qualquer denúncia da falta dos cuidados imprescindíveis a todos aqueles que têm o direito de viver com dignidade até ao termo da sua existência. Será para […]

Narciso Mendes - 20 Jun 2022

O tempo é de folia, O tempo é de verão, O tempo é de calor, É tempo de S. João.   Nosso povo sai à rua E festeja o São João, Anda de cravo e martelo Enquanto sobe o balão.   Foi ao som de marteladas Que em dia de São João Eu perdi minha […]


Scroll Up