Espaço do Diário do Minho

A revolução da ternura

19 Mai 2022
Silva Araújo

1. Na mensagem que escreveu para o próximo Dia Mundial dos Avós e dos Idosos o Papa Francisco fala numa necessidade muito urgente: a revolução da ternura.

«Neste nosso mundo, queridas avós e queridos avôs, queridas idosas e queridos idosos, estamos chamados a ser artífices da revolução da ternura!»

«Peçamos a Nossa Senhora, Mãe da Ternura, que faça de todos nós dignos artífices da revolução da ternura para, juntos, libertarmos o mundo da sombra da solidão e do demónio da guerra».

2. «O mundo, escreve também, vive um período de dura provação, marcado primeiro pela tempestade inesperada e furiosa da pandemia, depois por uma guerra que fere a paz e o desenvolvimento à escala mundial.

Não é por acaso que a guerra tenha voltado à Europa no momento em que está a desaparecer a geração que a viveu no século passado.

E estas grandes crises correm o risco de nos tornar insensíveis ao facto de que existem outras ‘epidemias’ e outras formas generalizadas de violência que ameaçam a família humana e a nossa casa comum».

«Perante tudo isto, acrescenta, temos necessidade duma mudança profunda, duma conversão, que desmilitarize os corações, permitindo a cada um reconhecer no outro um irmão».

3. Estamos a pagar caro o progressivo e insistente afastamento da mensagem cristã, cujo núcleo fundamental é o amor mútuo (João 13, 34-35; 15, 9-17).

Lembro um filme de Cantinflas, Sua excelência o embaixador. Na comunidade das nações, numa sessão em que se procurava solução para os problemas com que a Humanidade se defrontava, recordou o que há mais de dois mil anos ensinou um humilde Carpinteiro de Nazaré: amai-vos uns aos outros. Pessoas influentes adulteraram a mensagem e praticam o armai-vos uns contra os outros. E sofremos-lhe, dia a dia, as consequências. Mas há responsáveis que persistem em não reconhecer o erro.

4. Além da Covid e da guerra, o Papa alude a outras epidemias. Refiro algumas: a do egoísmo, a da indiferença, a do comodismo, a do consumismo, a da coisificação e do desprezo do outro, a das ambições desmedidas…

Estas e outras epidemias impedem as gerações mais novas de reconhecerem a dignidade dos idosos e do muito que lhes devem. 

Cito de novo o Papa: «Consideram a velhice uma espécie de doença, com a qual é melhor evitar qualquer tipo de contacto: os idosos não nos dizem respeito – pensam elas – e é conveniente que estejam o mais longe possível, talvez juntos uns com os outros, em estruturas que cuidem deles e nos livrem da obrigação de nos ocuparmos das suas penas».

Por isso convida a «visitar os idosos mais abandonados, em casa ou nas residências onde estão hospedados. Procuremos que ninguém viva este dia (dos avós e dos idosos) na solidão».

«A visita aos idosos abandonados é uma obra de misericórdia do nosso tempo!»

5. Recomenda o Papa que se saiba viver a velhice. «Envelhecer, diz, não é uma condenação, mas uma bênção!»

«Por isso, devemos vigiar sobre nós mesmos e aprender a viver uma velhice ativa, inclusive do ponto de vista espiritual, cultivando a nossa vida interior através da leitura assídua da Palavra de Deus, da oração diária, do recurso habitual aos Sacramentos e da participação na Liturgia.

E, a par da relação com Deus, cultivemos as relações com os outros: antes de mais nada, com a família, os filhos, os netos, a quem havemos de oferecer o nosso afeto cheio de solicitude; bem como as pessoas pobres e atribuladas, das quais nos façamos próximo com a ajuda concreta e a oração».

6. A revolução da ternura deve ser obra de todos. De novos e de menos novos. Que cada um, na situação em que se encontra, faça quanto depende de si para que as comunidades em que se integra sejam cada vez mais humanas. Consciente de que, como escreve o Papa, «a felicidade é um pão que se come juntos».



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