Espaço do Diário do Minho

Uma geração despreocupada?

15 Mai 2022
Paulo Sousa

Não será a primeira, nem provavelmente a última vez, que o tema volta à baila e por aquilo a que assistimos na semana que agora finda, a urgência de voltar a refletir sobre o assunto, emerge de uma pergunta: esta geração, frequentadora da Universidade, só tem para oferecer cerveja e música quando desfila pelas ruas da cidade? – Sem querer meter todas e todos os estudantes no mesmo saco, voltamos a assistir à impiedosa manifestação das cervejeiras, empunhadas sob o lema do quanto mais melhor e o mais foi o barulho não reivindicativo, mas apenas divertido do Enterro da Gata. Qualquer comparação com o passado é pura coincidência. Parece-me, contudo, que vale apena acreditar em estudantes como o atual presidente da Associação Académica da Universidade do Minho, sensível, crítico, culto e motivado a dar a volta a uma Academia que se tem mostrado alienada da participação política e pouca motivada a aproveitar as oportunidades que lhe são oferecidas para uma maior intervenção, quer na vida interna da academia, quer na sociedade. Há um relaxamento superlativo, que nada tem de subversivo, pouco capaz de mobilização, apesar de se debater com debilidades que mereceriam maior preocupação e uma iniquidade pouco substantiva. Desde a habitação, às propinas, passando pela integração no mercado de trabalho ou por temas mais candentes como as perspetivas de futuro a médio e longo prazo, os estudantes deveriam ser mais reivindicativos, mais assertivos e objetivos. A sua palavra é importante, a sua intervenção urgente e a afirmação das suas preocupações, uma necessidade imperiosa que deveria saber aproveitar as oportunidades que a sociedade lhe oferece. Não é por acaso que o Movimento de Cidadania Contra a Indiferença apostou, nesta homenagem à Democracia, na componente do ensino e que, nas últimas eleições, o então eleito presidente da Associação Académica tenha percebido a catástrofe em que decorreu a sua eleição com a alienação de 80 por cento dos alunos entre os cerca de 20 mil estudantes da Universidade do Minho. Num momento de fragilidade dos alicerces da Democracia, perante a urgência de uma mobilização que consolide a visão de liberdade e de paz, baixar os braços, ou simplesmente encontrar na leviandade dos dias, o escape para os problemas, não é solução. Os futuros líderes, nas diferentes áreas de saber, têm uma tarefa gigantesca: cuidar da Democracia. Os nossos pais e irmãos mais velhos fizeram-no com grande sacrifício e a seu tempo, os filhos da Democracia têm a obrigação de não esquecer que o legado que receberam significa muito mais do que a despreocupação com que enfrentam a atual realidade. Há hoje, uma liberdade de escolha no diálogo entre governantes e governados, inexistente à época da ditadura. Esta despreocupação latente entre tantas e tantos estudantes universitários, deve merecer uma profunda reflexão desta e de todas as universidades. O futuro exige e o Movimento acredita, que a participação nos órgãos de governação das universidades, deve ser estendido à cidade, numa visão partilhada, marcada pela disrupção das soluções e pela vontade de Mudança. Mudança essa, que deve ser encarada como imperiosa e absolutamente mobilizadora, para se esquecer a união entre as cervejas e algum misto de despreocupação, na procura da Sustentabilidade das decisões. A Educação é fundamental, mas creditem: não basta. Precisamos que, a todo o custo, seja abandonada e de premência, esta ideia peregrina de que tudo se resolve a contento das partes. Não é assim! Os estudantes deveriam saber que, pior que a ausência, o relaxamento paga-se caro. Nada tenho contra a cerveja ou a diversão; simplesmente, não quero fazer parte do grupo daquelas e daqueles que se sujeitam à vossa alienação ou despreocupação e nada fazem para pensar sobre o futuro da Democracia e da Liberdade.



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