Espaço do Diário do Minho

O QUE POSSO FAZER PARA O FIM DA GUERRA NA UCRÂNIA

15 Mai 2022
P. Rui Rosas da Silva

Há já alguns dias, um velho amigo com quem não falava há muito tempo, telefonou-me. Não fui eu quem atendeu a chamada e a pessoa que o fez sofre duma certa surdez. Perguntei-lhe quem me procurava e disse-me um nome que, para mim, era completamente desconhecido. Confesso que a primeira reação foi a de dar a desculpa habitual, pedindo-lhe para dizer que eu, afinal, não estava em casa, ao contrário do que ele pensava quando atendeu. Mas perante a sua insistência de que era um velho amigo que me queria falar, fui até ao telefone, contrariado, e com medo de ir perder tempo com alguma proposta de compra dum telemóvel super-eficiente e completo, ou qualquer coisa do género, como já me sucedeu por diversas vezes.

Afinal, tinha razão. Era mesmo um velho amigo, companheiro de infância e de parte dos meus estudos académicos. Vivemos há alguns anos em cidades diferentes, mas a amizade não morreu. Por isso, de vez em quando, o telefone é o meio mais fácil e acessível para trocarmos impressões e matarmos saudades. Curiosamente, somos algo parecidos, pelo que, antes de eu ter tempo de lhe perguntar se estava a seguir a guerra na Ucrânia, foi ele que lançou a conversa para essas bandas e, em poucas palavras, manifestou-me que o seu parecer sobre o tema navegava nas mesmas águas do meu. Estávamos de acordo que era uma guerra absurda, proveniente da mente dum chefe político que dispunha de muito poder bélico e admirava a capacidade de resistência dos soldados ucranianos. No entanto, o caudal de desgraças e de brutalidade estava a tornar aquela terra num monte de ruínas e de mortes injustas, sobretudo quando os bombardeamentos russos desfaziam escolas, casas de habitação, feriam hospitais e matavam gente inocente.

Enfim, uma calamidade. E acrescentava: – Confesso que pensei que já não assistiria a um espectáculo tão triste e violento nos meus dias. A guerra é um absurdo, porque faz do homem um ser que não resolve os problemas duma forma racional e pacífica, mas fundamentando-se na lei do mais forte. É óbvio que o senhor Putin tem um exército mais numeroso e mais apetrechado do que os ucranianos. No entanto, quem já viu morrer nesta guerra mais de trinta mil dos seus soldados – segundo informação ucraniana – e a continua, não parece ser uma pessoa com sentimentos humanos. Isto para nem falar já do dinheiro que perde em material de guerra e na ocupação bélica de tantos jovens da sua pátria, que poderiam fazer coisas muito mais úteis e prestáveis do que andar aos tiros e a arruinar um país. Se fosse aproveitada para outras finalidades tanta juventude, quanto bem não poderia alcançar!…

Confesso que as razões deste amigo tiveram o meu acordo, embora, pelo absurdo que existe num estado de guerra, me custe a compreender que o senhor Putin não tenha outras razões que desconheço e talvez fundamentem um motivo mais razoável para a sua acção bélica. As notícias a seu respeito são algo confusas, indicando até que o estado de saúde do líder russo é muito vulnerável e perigoso. Não posso confirmá-las e, às vezes, os órgãos de comunicação social fazem-se eco de situações que gostariam que fossem assim, mas não correspondem rigorosamente à realidade .

Boa pessoa, o meu amigo acabou por me dizer: “Estou descontente comigo mesmo, sabes? Tenho-me ocupado – mais, preocupado! – demasiadamente com a guerra na Ucrânia. O que posso fazer?… Sim, o que é que um mortal como eu, que vive longe do teatro de guerra (entre Portugal e a Ucrânia está toda a Europa e sou pai duma família que tenho de ajudar a sustentar), deve fazer para que ela termine?… Pensei nisto muitas vezes e esqueci-me de que só devo enveredar por uma pista que dê algum resultado. E concluí, enfim, que o meu serviço para alcançar a paz, que está em perfeito acordo com as minhas possibilidades e o meu dever, é a oração. Imagina, que só me lembrei disto, quando, ao repassar, nestes dias de Maio, algum trecho sobre as aparições de Fátima, li que Nossa Senhora pediu vigorosamente a três crianças inocentes que rezassem e oferecessem muitos sacrifícios para que a guerra de então (a Primeira Grande Guerra Mundial, que infestava em boa parte da Europa) chegasse ao seu fim”.

Fez uma pausa, fitou-me com certa comoção interior, e acrescentou: “Cheguei tarde a esta conclusão. Rezei pouco. Pedi perdão a Deus. E procurei, desde então, cumprir com mais generosidade aquilo que posso realmente fazer pela paz na Ucrânia… E concluiu: ‘Mais vale tarde do que nunca’, lá diz o ditado”. E eu senti também na minha consciência uma espécie de solavanco forte, para me decidir a imitar o meu amigo.



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