Espaço do Diário do Minho

Evangelizados evangelizadores

12 Mai 2022
Silva Araújo

1. Celebrou-se domingo o LIX Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Da mensagem do Papa Francisco destaco os seguintes parágrafos:

«A sinodalidade, o caminhar juntos é uma vocação fundamental para a Igreja e, só neste horizonte, é possível descobrir e valorizar as diversas vocações, carismas e ministérios.

Ao mesmo tempo, sabemos que a Igreja existe para evangelizar, saindo de si mesma e espalhando a semente do Evangelho na história. 

Ora esta missão é possível precisamente colocando em sinergia todas as áreas pastorais e, antes ainda, envolvendo todos os discípulos do Senhor. Com efeito, «em virtude do Batismo recebido, cada membro do Povo de Deus tornou-se discípulo missionário (cf. Mt 28, 19). Cada um dos batizados, independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé, é um sujeito ativo de evangelização» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 120). 

É preciso acautelar-se da mentalidade que separa sacerdotes e leigos, considerando protagonistas os primeiros e executores os segundos, e levar por diante a missão cristã, conjuntamente, leigos e pastores como único Povo de Deus. Toda a Igreja é comunidade evangelizadora».

2. Paulo VI lembrou no número 24 de «Evangelii nuntiandi»: «aquele que foi evangelizado, por sua vez, evangeliza. Está nisso o teste de verdade, a pedra de toque da evangelização: não se pode conceber uma pessoa que tenha acolhido a Palavra e se tenha entregado ao Reino sem se tornar alguém que testemunha e, por seu turno, anuncia essa Palavra». «Evangelizar constitui, de facto, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade» (idem, 14). 

E a Igreja não se reduz aos clérigos. Lembro João Paulo II: «Os fiéis leigos, precisamente por serem membros da Igreja, têm por vocação e por missão anunciar o Evangelho» («Vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo», 33).

Da Igreja fazem parte todos os batizados. A todos incumbe a tarefa de tornar Jesus cada vez mais conhecido e amado. Através da palavra e, sobretudo, do testemunho de vida. Do vede como eles se amam, a que se refere Tertuliano (Apologético, 39).  

«O testemunho de uma vida autenticamente cristã, entregue nas mãos de Deus, numa comunhão que nada deverá interromper, e dedicada ao próximo com um zelo sem limites, é o primeiro meio de evangelização» (Paulo VI, Idem, 41).

3. Não deixando de bater no próprio peito e sem esquecer o que se tem realizado atrevo-me a perguntar: 

Na generalidade, tem-se atribuído a devida importância à catequese de adultos e à formação cristã dos leigos? Tem-se reconhecido o estatuto que os leigos têm na Igreja? Não se tem insistido numa igreja demasiado clerical? Não será de recordar as primeiras comunidades cristãs?

4. O Papa insiste na sinodalidade da Igreja. É o caminho. Mas não é fácil. Há resistências a vencer. Está enraizado em certos líderes o autoritarismo do «eu posso, em quero, eu mando». Firmados no «quem manda sou eu» cortam e riscam por onde lhes apetece. Creem-se iluminados. Têm dificuldade em consultar os outros. Quando o fazem, muitas vezes por obrigação, é para os convencer a estar de acordo com o que no íntimo já decidiram.

Fala-se muito em sinodalidade. E agir sinodalmente? Fala-se muito em Povo de Deus mas em alguns meios prevalece a conceção piramidal de Igreja, onde tudo vem cozinhado por quem está no vértice e o poder nem sempre é exercido como serviço.

Nem tudo é dogma de fé. Há liberdade de opinião e de associação. A unidade não é sinónimo de uniformidade. Na mensagem para o próximo Dia Mundial das Comunicações Sociais o Papa fala numa «Igreja sinfónica, onde cada um é capaz de cantar com a própria voz».

Há o direito de discordar, mas quem o exerce, às vezes, é tido como desafinado ou incómodo desmancha-prazeres.

A sinodalidade é o reconhecimento do direito/dever de falar e de ouvir (escutar). É uma ocasião «de escuta recíproca», diz o Papa. Mas…



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