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Dia da Europa assinalado em Estrasburgo com aposta na construção do futuro.

Luísa Teresa Ribeiro*
11 Mai 2022

O Dia da Europa foi celebrado segunda-feira, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, numa cerimónia em que a União Europeia se comprometeu a ajustar-se para pôr em prática as propostas formuladas pelos cidadãos dos 27 Estados-Membros auscultados no âmbito da Conferência sobre o Futuro da Europa.

No dia em que foi assinalada de forma festiva a data da Declaração Schuman, considerada o momento fundador da atual União Europeia, a condenação da guerra na Ucrânia, a ênfase na paz e a exaltação da democracia marcaram as intervenções dos líderes europeus, quando a Rússia comemorou o 77.º aniversário da vitória na II Guerra Mundial com uma parada militar em Moscovo.

O primeiro-ministro português, António Costa, esteve ao lado do presidente francês, Emmanuel Macron, que preside neste momento ao Conselho da União Europeia, da presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, e da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, uma vez que foi durante a presidência portuguesa que arrancou a Conferência sobre o Futuro da Europa.

Com o hemiciclo cheio, incluindo eurodeputados e cidadãos que participaram nos trabalhos da Conferência sobre o Futuro da Europa, Roberta Metsola classificou a invasão da Ucrânia pela Rússia como «um ato de agressão medieval que mudou o mundo».

«O mundo pós-24 de fevereiro é muito diferente. É mais perigoso. O papel da Europa mudou com isso. Não nos podemos dar ao luxo de perder mais tempo. A forma como respondemos à invasão e como devemos continuar a responder é o teste decisivo dos nossos valores», afirmou.

Em seu entender, «o futuro da Europa está ligado ao futuro da Ucrânia. A ameaça que enfrentamos é real. E o custo do fracasso é enorme». «O Parlamento Europeu vai lutar por uma Europa mais forte e por tudo o que a Europa significa. E significa liberdade, democracia, Estado de Direito, justiça, solidariedade, igualdade de oportunidades», declarou.

«Precisamos de uma nova política de segurança e defesa porque sabemos que precisamos uns dos outros, que sozinhos somos vulneráveis», disse, argumentando que «a Europa nunca teve medo», pelo que chegou o momento de dar um passo em frente no caminho da integração europeia.

 

Sonho europeu continua a brilhar

A presidente da Comissão Europeia destacou a imagem de uma jovem mãe a segurar o seu bebé, no Parlamento Europeu, durante a sessão da Conferência sobre o Futuro da Europa. «Esta é a imagem com a qual quero que celebremos o dia 9 de Maio. Uma imagem muito mais poderosa do que qualquer desfile militar a subir e descer as ruas de Moscovo. E quero que esta imagem nos lembre de nunca darmos como certo o que é a Europa e o que ela significa. A Europa é um sonho. Um sonho que sempre foi. Um sonho nascido da tragédia», disse.

Na sua perspetiva, hoje, esse sonho «brilha mais forte» junto dos ucranianos, seja dos que permanecem em cidades ocupadas ou dos que «encontraram um refúgio na Europa – um lar longe de casa». «Essas pessoas estão dispostas a lutar e a morrer pelo seu futuro e por esse sonho da Europa», acrescentou.

Ursula von der Leyen revelou que se reuniu, segunda-feira de manhã, por videoconferência com o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que queria entregar as suas respostas ao questionário da Comissão Europeia relativamente ao processo de adesão, num total de mais de 5 000 páginas.

Esta dirigente deixou uma mensagem aos ucranianos: «O futuro da Europa é também o vosso futuro, o futuro da nossa democracia é também o futuro da vossa democracia. Há 72 anos, a guerra na Europa foi substituída por algo diferente, algo novo. Primeiro uma Comunidade, hoje uma União. Foi o dia em que o futuro começou. Desde então, esse futuro tem sido escrito em conjunto. A próxima página está agora a ser escrita por vós, por nós, por todos unidos».

 

Macron propõe comunidade política europeia

O presidente francês realçou o contraste entre as comemorações em tom bélico em Moscovo e a reunião de cidadãos e políticos em Estrasburgo para construírem o futuro da Europa, na sequência de um «exercício democrático sem precedentes».

Lembrando que Robert Schuman dizia que «a paz mundial não pode ser salvaguardada sem esforços criativos proporcionais aos perigos que a ameaçam», Emmanuel Macron argumentou que «esses esforços criativos são, sem dúvida, ainda mais necessários hoje do que ontem».

Apontando a democracia europeia como «o que temos de mais precioso», mostrou-se empenhado em «construir uma Europa mais forte e soberana». «A liberdade e a esperança no futuro têm o rosto da União Europeia», sendo que é em «nome dessa liberdade e dessa esperança que apoiamos e continuaremos a apoiar a Ucrânia, o seu presidente e todo o povo ucraniano», explicitou.

O chefe de Estado disse que objetivo é parar a guerra o mais rapidamente possível e preservar a paz no resto do continente europeu, evitando qualquer escalada. «Não estamos em guerra com a Rússia. Trabalhamos como europeus pela preservação da soberania e integridade territorial da Ucrânia, pelo regresso da paz ao nosso continente», declarou, antecipando que, «quando a paz regressar ao solo europeu, teremos de construir novos equilíbrios de segurança e não devemos ceder à tentação da humilhação ou do espírito de vingança».

O presidente em exercício do Conselho da UE assegurou que a «Ucrânia, pela sua luta e pela sua coragem, é já hoje um membro do coração da família europeia», contudo advertiu que seguindo os trâmites normais o processo de adesão pode demorar décadas.

Perante os novos desafios, defendeu que «temos o dever histórico de abrir uma reflexão inédita à altura dos acontecimentos que estamos a viver sobre a organização do nosso continente», propondo a criação de uma comunidade política europeia, que permitiria «unir a Europa em função da sua geografia, com base nos seus valores democráticos, com o desejo de preservar a unidade do continente, mantendo a força e a ambição da integração europeia».

«Esta nova organização permitiria às nações europeias democráticas que subscrevem os nossos valores fundamentais encontrarem uma nova área de cooperação política, segurança, cooperação em matéria de energia, transportes, investimento, infraestruturas, circulação de pessoas, especialmente os jovens. A entrada nessa organização não prejudicaria a futura adesão à União Europeia, nem estaria fechada para aqueles que já saíram da UE», explicou.

 

Costa defende que adesão à UE não pode ser a única resposta

O primeiro-ministro português considera que «a adesão à União Europeia não pode ser a única resposta para a organização da Europa e sobretudo não pode ser a única resposta em situações de emergência como aquela que se vive hoje na Ucrânia».

António Costa falava aos jornalistas portugueses, entre os quais o Diário do Minho, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo. Depois da sessão que assinalou o Dia da Europa, o governante referiu que, «independentemente do parecer que a Comissão venha a dar e que o Conselho venha a apreciar em junho», o processo de adesão da Ucrânia à União Europeia «será sempre muito longo, muito difícil e muito exigente», lembrando que a adesão de Portugal «levou nove anos».

«Macron teve aqui uma proposta ousada, de criarmos um outro tipo de organização no quadro europeu, onde possam estar não só os Estados da UE, mas também Estados que saíram da UE e queiram regressar, como Estados que são candidatos e que há anos se arrastam em processos de adesão», afirmou.

Sobre a guerra na Ucrânia, defendeu que esta gerou «uma união que há muito tempo não existia no seio da NATO e uma união como há muito tempo não existia na União Europeia». «Acho que é particularmente contrastante a celebração do Dia da Europa – o dia da paz – com uma parada militar na Rússia, enquanto na União Europeia se celebra o fim da guerra com uma manifestação de paz e cidadania, que é esta relação sobre o futuro da União Europeia e como é que podemos continuar a ser uma força que garante a paz e a propriedade».

 

*Em Estrasburgo, a convite do Parlamento Europeu




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