Espaço do Diário do Minho

César Augusto, de máscara

3 Mai 2022
Eduardo Tomás Alves

  1. Uma máscara no imperador Augusto). Há cerca de 1 mês atrás, estando eu na cidade de Braga, resolvi matar saudades do lugar onde morou um amigo meu, prematuramente falecido, do qual alguns de vós ainda por certo se lembrarão. Trata-se do dr. José Alfredo Alencoão Marques, professor liceal de geografia. O qual era cunhado do dr. Miguel Macedo (ex-ministro do PSD) e filho do desembargador José Marques (natural de Vale Verde, em Almeida). Foi nessa zona de Braga que, muito justamente, há poucos anos se erigiu uma estátua ao 1º imperador de Roma, César Augusto (63 a. C. -14 d. C.), de algum modo “padrinho” da cidade, outrora precisamente chamada Bracara Augusta. A estátua (de modesta volumetria), é como na Antiguidade se faziam muitas, colorida. Porém, à distância vi que havia alguma coisa de errado, de estranho. Ao perto percebi: algum engraçadinho (adepto da“cultura do cancelamento”…) lembrou-se de carinhosamente pôr uma máscara anti-Covid na cara do imperador. Com este desprestigiante e familiaríssimo adereço, já assim devia estar vestido há vários dias. Para mais, mesmo ao lado de um quartel de bombeiros… Ainda estive para chamar a atenção de algum passante ou “soldado da paz”, de que aquilo era ignominioso e não tinha jeito nenhum. Mas optei por nada dizer. Entre outros motivos, porque não quis tomar partido a favor dos nossos conquistadores italianos do passado remoto; e contra os indígenas celtiberos, por aqueles avassalados. Embora todos nós hoje descendamos de ambos esses contendores de duas etnias diversas e bem inimigas.

  2. Há estátuas… e estátuas). A pessoas ou a deuses ou deusas, há-as que são verdadeiras obras de arte. Outras são mais fraquinhas, embora bem intencionadas. Outras são subtilmente (ou nem isso…) amesquinhantes do homenageado (exemplo disto são inúmeros bustos do grande Sá Carneiro, detestado por tantos dos revolucionários de Abril). Há outras estátuas (ou bustos) erigidos ainda em vida, o que é um erro. Há ainda as estranhas estátuas sem pedestal, como a da rua da Junqueira (P. de Varzim). E há as estátuas propositadamente vexatórias, como a que o provocatório Cutileiro fez em Lagos ao saudoso rei Sebastião, martirizado pelos marroquinos em Alcácer Quibir (1578).

  3. Extractos abreviados do início de “As vidas dos Césares”, de Suetónio, sobre Augusto). A família Octávia foi outrora uma das primeiras de Velitras (cidade dos Oscos, hoje Velletri, no Lácio a SE de Roma). Um dos bairros da cidade chamava-se há muito, “Octávio”. Esta família, que o rei Tarquínio o Velho admitira no senado, não tardou a ser colocada entre as famílias patrícias por Sérvio Túlio. Tornada mais tarde plebeia, foi só após longos anos e por vontade de Júlio César que volveu ao patriciado. O 1.º dos seus membros que chegou a magistrado, foi Caio Rufo. Este questor teve 2 filhos, Cneio e Caio, dos quais sairam 2 ramos, com destinos muito diferentes. Os de Cneio desempenharam os mais altos cargos. Os de Caio limitaram-se à ordem equestre (classe média). O bisavô de Augusto serviu na 2.ª Guerra Púnica (na Sicília, como tribuno militar). O avô contentou-se em exercer funções municipais. O (grande) Marco António censura Augusto por ter tido por bisavô um liberto, cordoeiro do burgo de Túrio; e por avô um prestamista. Caio Octávio, o pai de Augusto, foi criado no meio da opulência; e desempenhou cargos públicos com distinção. Obteve a Macedónia; e ao encaminhar-se para lá, dizimou os restos fugitivos dos bandos de Spartacus e Catilina. Na Macedónia, desbaratou numa grande batalha os Beócios (?) e os Trácios. No seu regresso, antes de se candidatar a cônsul, morreu subitamente. Deixou vários filhos, entre eles Augusto, filho de Átia. Esta, era filha de Júlia (a irmã do general Júlio César). O pai de Átia era Balbo, cujos avós eram de Arícia (com muitos antigos senadores) e cuja mãe era aparentada com o grande Pompeu. Porém, M. António critica Augusto, que revela ter tido um bisavô materno (perfumista e padeiro), que era africano. Augusto nasceu no consulado de M. António e de Cícero, em Setembro, um pouco antes do nascer do sol, no bairro do Palatino chamado “Cabeças de Boi”. Já a casa onde cresceu, era numa quinta da sua família, perto de Velitras, tão modesta que parecia um celeiro. Em pequeno, alcunhavam-no de “Turino”, por Túrio ser também a região dos seus antigos. Aos 4 anos perdeu o pai. Aos 12, pronunciou o elogio fúnebre de sua avó Júlia. Aos 16, envergou a toga viril. Quando seu tio-avô (Júlio César) partiu para as Hespanhas a combater os filhos de Pompeu, seguiu-o de perto, embora convalescente, por estradas infestadas de inimigos, com uma pequena escolta; e depois de escapar a um naufrágio.

  4. Outras curiosidades sobre Augusto). No Egipto, retirou o cadáver de Alexandre (que morrera 300 anos antes) do sarcófago, para o cobrir com flores e uma coroa de ouro. A 2ª e última vez que veio à Ibéria, foi para dirigir a difícil conquista dos Cântabros (26-19 a. C.). Transferiu parte dos Suevos para o lado de cá do Reno. “Apressa-te devagar” era um dos seus lemas. Mostrou aos romanos, o 1º tigre e o 1º rinoceronte. No teatro, uma vez caiu de costas, porque a cadeira se partiu. Nunca esteve na Sardenha. Roubou uma das suas esposas (Lívia Drusila), grávida, ao marido. Tinha o cabelo castanho-claro, olhos de avelã, sobrancelhas espessas (e a mania de fazer baixar o olhar do interlocutor…). Não era alto, os dentes irregulares e separados no meio. O corpo, com bastantes sinais.



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