Espaço do Diário do Minho

Marine, tal como o “Quase” do filme Apocalypto

19 Abr 2022
Eduardo Tomás Alves

  1. Os resultados da 1ª volta das “presidenciais” em França). Foram em 10-4-2022. Macron foi o 1º, com 27%; Marine Le Pen a 2ª,com 23%; Mélenchon o 3º, com uns inesperados 22%; Zemmour o 4º, com 7% apenas; o ecologista de esquerda Jadot, o 5º, com 5%. A “centrista” Pécresse teve 4%. O nacionalista dissidente Dupont-Aignan teve 2%; entre outros. Apurados para a 2ª volta, como era esperado, Macron e Marine.

  2. Marine lembra-me o reverso do personagem “Quase”, do filme Apocalypto). De Mel Gibson, é seguramente um dos melhores filmes deste nosso século, começado há 22 anos. O filme retrata um episódio comum, no tempo do Império Azteca; no qual, uma expedição militar de guerreiros profissionais do império, se desloca a uma zona tribal florestal (no Yucatán) para capturar uma grande quantidade de pessoas; com o fim de servirem de vítimas sacrificiais numa das muitas festas periódicas; em que, do alto das pirâmides se arrancavam os corações dos inimigos e se lhes cortava a cabeça; tudo na presença dos grandes sacerdotes, do povo e do imperador e família… Ora, o herói desse filme é um jovem e bravo “ameríndio” tribal, que “cai no radar” dum dos principais chefes da cruel expedição; o qual faz tudo para que ele morra, inclusive no longo e penoso percurso até Tenochtitlán (a capital). E mesmo depois, quando no famoso jogo azteca da bola, ele foge através dos vastos milheirais. O frustrado carrasco acaba por cinicamente o “baptizar” de “O Quase”, pois o herói escapa sempre à morte nos últimos segundos. Contudo estamos por 1522; e quando o herói mata o carrasco, salva a sua família e se refugia numa praia… acabam de aí aportar as naus do reino de Espanha, que se irão assenhorar de todas aquelas vastas terras mexicanas. Tudo isto me lembra agora Marine Le Pen, a heroica defensora da França (tal como esta tem sido). Sempre perto da vitória… mas há sempre algo que acontece que a faz perder. E nestas eleições, o cenário pode repetir-se.

  3. O “diabo” sai ao caminho de Marine, 3 vezes…). “Marina, Marina, Marina” (3 vezes também), estava em voga esta bela canção ligeira italiana, quando eu andava na escola primária. Talvez por isso Marine Le Pen obtém sempre tão bons resultados na Córsega e na Provença… Mas agora falava eu do “diabo”, que lhe sai 3 vezes ao caminho. A 1ª é quando aparece na campanha, vindo do nada, o brilhante e empático pequeno judeu argelino Eric Zemmour; homem de Direita, mas cuja chegada só prejudicava e dividia a verdadeira Direita, a estabelecida por 4 décadas de trabalho e sacrifícios de Marine e de seu pai, Jean Marie Le Pen. A 2ª vez é quando o seu “amigo”, o coronel Vladimir Putin decide escolher o exacto início da campanha eleitoral de Marine, para responder às provocações continuadas da NATO, procurando através duma operação militar, recuperar para Moscovo os territórios historicamente “grão-russos” da Ucrânia. A 3ª vez é quando o radical de Esquerda Jean Luc Mélenchon (também “amigo” de Putin), que as sondagens avaliavam à volta de 10%, aparece no 3º lugar do sufrágio, com uns inflacionados 22%. E, agora que já tem peso, diz-se neutro a respeito de Macron, que até à véspera era o seu principal inimigo, o representante do Grande Capital internacional…

  4. Mélenchon, “devolve-me as minhas legiões”). Esta era a célebre frase que o já idoso imperador César Augusto repetidamente gritava, batendo com a cabeça nas colunas e portões do palácio de Roma, com a barba e o cabelo por cortar, semanas a fio, corria o ano 9 d. C.. O seu amigo Varo (antigo governador da Síria, onde confraternizou com o “rei Herodes”) acabava de ser massacrado na floresta de Teutoburgo (NW da Alemanha) juntamente com as legiões 17, 18 e 19. A frase pode agora ser pronunciada por Marine, a propósito dos ganhos eleitorais à sua custa, alcançados por Mélenchon: “João Lucas, devolve-me os meus eleitores!”. Ou então, “afinal, de que lado estás, Mélenchon?”. Uma indicação de voto firme, anti-Macron, de Jean Luc, daria a vitória a Marine: os seus 22%, somados aos 23 de Marine, aos 7 de Zemmour e aos 2 de Dupont-Aignan dariam mais de 54% na 2ª volta. Porém, adivinha-se que João Lucas pretenda talvez, atrelar o seu “insubmisso” partido ao Sistema… E não lhe convém dar gás uma presidente nacionalista. A união dos “coletes amarelos” parece ter os seus dias contados.

  5. Vai ser difícil o triunfo da Direita Nacionalista, num país com tantos filhos e netos de imigrantes). Não me refiro, sequer, aos luso-descendentes (ou aos netos de italianos ou de espanhóis); muitos deles até votam em Marine. O problema está nos muitos milhões de votantes de raiz magrebina, africana ou judaica, cujos pais e avós recentemente “assentaram colonizatórios arraiais” no país dos Gauleses. E que, apesar das insuperáveis diferenças históricas, étnicas, religiosas e culturais, se sentem no pretenso direito de dizer que são franceses “exactamente como os outros”, não o sendo. É isto que a Direita francesa quer delimitar de vez. Só que o “Sistema” é maçónico e dá injusta prevalência ao “jus soli” sobre o “jus sanguinis”. Quando os estrangeiros eram poucos, pouco prejuízo havia. Só que agora, está em jogo a própria existência da França “de sempre”.



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