Espaço do Diário do Minho

OVOS DE PÁSCOA PINTADOS COM SANGUE

15 Abr 2022
António Brochado Pedras

Na Ucrânia, como noutros países eslavos, os ovos de Páscoa são considerados um símbolo de vida e de nascimento, integrando, segundo costumes ancestrais, o cabaz de alimentos partilhados pelas famílias no dia maior da grande festa cristã: o Domingo da Ressurreição.

Tal como outros usos e costumes, a arte de pintar ovos de Páscoa provem da época do paganismo, tendo sido depois integrada no cristianismo, nos finais do século X, que a enriqueceu com mensagens religiosas próprias.

Pintados com cera e tintas naturais, os ovos têm padrões e cores distintas, segundo cada região da Ucrânia. Porém, a cor original é a vermelha. A este propósito, reza uma velha lenda que, quando Maria Madalena levou ao imperador romano, Tibério, a mensagem cristã da ressurreição de Jesus, o imperador não acreditou, retorquindo à mensageira que era mais rápido os ovos que estavam na sua mesa do almoço mudarem de cor do que um ser humano voltar à vida depois da morte. E, acto contínuo, os ovos da mesa mudaram de cor, ficando vermelhos.

Percebe-se facilmente a associação do símbolo e da cor encarnada destes ovos pascais se se pensar que, no núcleo central do cristianismo, está a ressurreição de Jesus, Aquele que, morrendo na cruz, venceu a morte e a superou, abrindo aos crentes a porta da ressurreição e da vida eterna.

Mas a cor vermelha é também justificada pela Páscoa judaica, que antecedeu a Páscoa cristã. Como se sabe, segundo a tradição, os judeus celebram nesse dia o momento em que Deus libertou o seu povo do cativeiro do Egipto. De acordo com a narrativa bíblica, Deus ordenou aos hebreus que pintassem o umbral das portas das suas casas com o sangue de um cordeiro sacrificado. Aqueles que não o fizessem veriam a morte do seu filho primogénito. Ora, como os egípcios disso não foram avisados, puniu-os Deus com a morte dos seus primogénitos.

Seja como for, pintados de rubro à semelhança do sangue de Cristo ou de outras vistosas cores, os ovos ucranianos continuam a ser verdadeiras obras de arte que se oferecem como presentes durante as celebrações pascais.

Esta é assim a tradição e o significado dos ovos pintados nos países eslavos. Todavia, de forma ilegítima e criminosa, a Rússia, de Putin, resolveu manchar a Páscoa na Ucrânia, pintando com o sangue dos ucranianos os ovos que são o símbolo da vida.

Invadindo um país irmão, como ele maioritariamente eslavo e cristão ortodoxo, com muitos falantes e população russófila, matando indiscriminadamente civis, entre os quais muitas crianças, destruindo hospitais, maternidades, escolas, creches, teatros, bairros residenciais e outros equipamentos públicos de primeira necessidade, obrigando mais de um quarto da população a procurar refúgio noutras regiões do seu país e em países estrangeiros e deportando para território russo, contra a sua vontade, cidadãos ucranianos que mantêm encarcerados longe da sua residência, muitos em lugares remotos, a Rússia não só violou gravemente as leis e o direito internacional, como os seus governantes e militares cometeram crimes de guerra e contra a humanidade pelos quais terão de ser julgados.

É sabido que o Conselho de Segurança da ONU, por ter como seu membro permanente e, por isso mesmo, com direito de veto, o país invasor e agressor, está impedido de aprovar e executar medidas tendentes a repor a legalidade internacional e o direito humanitário e de impor coercivamente as decisões tomadas maioritariamente pela Assembleia Geral. Como sabido é que, não sendo a Rússia signatária do Tratado de Roma que, em 1998, instituiu o Tribunal Penal Internacional e lhe outorgou o respectivo Estatuto, é impossível executar no território russo mandados de detenção para julgamento presencial dos responsáveis, em Haia, e, eventualmente, em caso de condenação, garantir a execução das penas aplicadas.

Subsiste apenas a possibilidade de, através do Tribunal da Justiça, investigar e julgar a prática de um eventual crime de genocídio – investigação que, neste momento, já decorre –, uma vez que tanto a Rússia como a Ucrânia foram subscritores da Convenção Para a Prevenção e Repressão do crime de genocídio.

Em todo o caso, mesmo que as instâncias internacionais não consigam fazer justiça ou fazê-la completamente, acredito que a justiça divina não falha e que, as mais das vezes, começa a fazer-se ainda cá na terra, segundo o velho aforismo “elas cá se fazem, elas cá se pagam”.

E, por isso, tenho fé que, à semelhança do que há muitos séculos se terá passado no Egipto, o sangue com que a Federação Russa pintou e continua a pintar os “ovos” desta Páscoa ucraniana liberte definitivamente a Ucrânia e o seu bravo povo da pata do urso putiniano e lhes restitua a liberdade e a soberania plenas.

Oro para que a Ucrânia vença e supere a morte e o exílio de tantos dos seus filhos e a destruição de tantas das suas aldeias, vilas e cidades, resgatando pelo sangue de Cristo a vida da Nação independente que quer continuar a ser.

Uma Santa Páscoa para todos.



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