Espaço do Diário do Minho

D. Amélia, apenas mudamos de bancada (*)

15 Abr 2022
Carlos Mangas

A D. Amélia era, não há outra forma de o dizer, uma instituição da nossa cidade e adepta fervorosa dos principais clubes da mesma. E, porque não dizê-lo, uma espécie de ícone nacional para quem, como eu, entende que os jogos de futebol deveriam ser locais de romaria e espaços salutares de convívio e confraternização entre adeptos da modalidade, antes e/ou depois.

Obviamente no decorrer dos mesmos, somos “doentes” e (embora não desejável) é perfeitamente aceitável que saiam uns apupos ou assobios, direcionados de acordo com o que as nossas momentâneas emoções, ditam. A D. Amélia sabia ser essa adepta. Os operadores de câmara das televisões quando mostravam jogos do SCB, faziam questão de a mostrar sempre. Se não o fizessem, todos questionavam – a Mélinha está doente?

As fotos eram os seus autógrafos para os adeptos que ouviam, garantidamente, um piropo adequado à sua fisionomia e/ou opção clubística. Era mais vista em jogos do SCB, mas também a encontrava muitas vezes no pavilhão da UM, Flávio Sá Leite, ou no das Goladas. Uma adepta genuína que fazia questão de estar presente no apoio às principais referências desportivas da cidade.

Conheci melhor a D. Amélia nas visitas que durante anos (2008-2014) realizamos com jogadores do clube às escolas do distrito. Ela aparecia, habitualmente, em escolas de Braga e/ou arredores. Os miúdos vibravam tanto com ela, como com os jogadores. A sua presença, alegria contagiante e roupas apelativas no amor ao clube, ajudavam a inculcar nas crianças o gosto pelo SCB, pois nenhum outro tinha, como o nosso, uma avozinha assim “fresca”, sempre bem vestida, penteada a preceito e até…com rebuçados para distribuir. Muitos clubes nacionais de diferentes formas mostraram que a partida da D. Amélia deixou de luto o futebol português e os verdadeiros adeptos da modalidade. As redes sociais inundaram-se de homenagens. Lembro aqui algumas.

Ainda em vida, mas já com a doença a impedi-la de marcar presença na Pedreira, Coronel Costa, conhecido adepto que labuta por terras algarvias, dedicou-lhe uma canção: “Amélia, de cabelo louro/tu és um tesouro/tão lindo e tão belo/da nossa cidade”(…) terminando com “…e no teu lugar/ninguém vai sentar/está à tua espera”.

Ricardo Rio, autarca: “com uma história de solidariedade familiar notável, nunca mais esquecerei os encontros em véspera de Natal em que me designava portador dos donativos que fazia questão de entregar às causas do momento. Um coração bom, guardado numa capa sempre festiva, que hoje deixou de bater.”

Ana Maria Pereira, professora e nossa companheira de bancada: “Não queria estar na pele de Deus que deve, nesta altura, estar a tentar parar a tentativa de Amélia mudar a cor do céu. Até parece que a estou a ouvir: ora “fosga-se” Deus, eu não vou estar toda a eternidade rodeada de azul, é vermelho e branco, vamos mudar isto para vermelho e branco.”

Despeço-me também da D. Amélia, com uma sugestão ao clube – que o seu cartão de sócia fique exposto em lugar de destaque, no nosso museu.

 

* O título desta crónica foi retirado de um post do Mundo Braguista.



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