Espaço do Diário do Minho

Embondeiro genealógico

6 Abr 2022
Bernardino Luís Costa

  1. «O MEU AVÔ LUÍS» é um livro de Sofia Pinto Coelho. Na capa, como que uma “sinopse”: «Por amor, renunciou a tudo: à pátria, a Salazar, à família». Ela conta a vida do seu “Avô Luís”. Ora, pensei que, ao mesmo tempo, sou “Luís” e “Avô”.

  2. E que tal “pintar” a genealogia da família até aos meus três “Netos”?!

Comecei pelas “raízes”, cheguei ao meu/nosso tronco; do qual brotaram dois “ramos” que, no conjunto, deram três “frutos”. Lancei-me na aventura. O significado “clássico” diz que desta “árvore” constam «os nomes dos ancestrais mais antigos, que são colocados no topo e sua descendência abaixo. A árvore genealógica é uma representação das pessoas que tiveram participação na existência de uma pessoa ou família».

  1. Na “árvore genealógica” que me propus “abraçar” (materialmente, só uma meia-dúzia de “eus” consegue fazê-lo), o centro é o “avô “, que, com a “avó”, consubstanciam o “tronco do embondeiro”. E a “árvore” termina nos “ramos ou frutos mais verdes e viçosos”, os três netos.

O embondeiro (ou imbondeiro, ou baobá) é uma árvore africana. Bem, o melhor é contar a história a partir do início. A «Árvore» da vida militar que a ditadura me ditou foi, desde o início envenenada. Do “inferno à beira-mar incendiado”, e ainda verde no cerne e na casca fui “transplantado” para o verde do mato e das florestas angolanas. Na permanência naqueles matos e naquelas matas conheci então o imbondeiro (ou baobá, três nomes para o gigante da floresta). Para além da grossura do tronco, a copa é um conjunto de grossos ramos, aos quais falta a cor verde. Mais se assemelha a raízes.

As lendas dizem que foi um castigo dos deuses por o embondeiro estar sempre insatisfeito com a folhagem. Outras fábulas contam que as raízes estão voltadas para o céu para a árvore comunicar com os deuses. Dizem que o Embondeiro ou Baobá já nasce velho. Os africanos consideram-no uma árvore sagrada, recipiente de milhares de anos de sabedoria.

Então, vi as suas “raízes” voltadas para as alturas, para os tempos do antes. Vi nelas as “raízes “, as origens da minha árvore genealógica algures situadas no século XIX.

A casca do embondeiro é utilizada pelas pessoas como tigelas. A polpa e a fibra são capazes de combater a diarreia, a disenteria e o sarampo.

O fruto do embondeiro denomina-se múcua. O cerne da fruta combate a febre e inflamações no tubo digestivo. No «embondeiro genealógico» do “avô Luís”, o primeiro fruto foi a primeira geração sua descendente. Dela nasceu a segunda geração dos frutos.

Estão de volta à boca da cena os três netos do avô Luís. A convivência com eles tem-se mostrado positiva e profícua. Há familiaridade, com a consciência das diferenças entre as nossas idades.

Há naturalmente «Contrastes, mas Sem Conflitos de Gerações».

O avô Luís, de que neste texto se fala, nasceu, viveu e respirou o ar poluído da (des)informação ditada pela ditadura do Estado Novo, “ao som da letra e da música regidas pela batuta”do Lápis Azul dos censores que decidiam aquilo que o país devia ou não saber.

Em «O Embondeiro Genealógico», dirigi-me aos três netos com estas palavras:

«Quando eu tinha a idade que vocês têm agora, a Vida “corria” a passo de caracol. Agora “anda” a um ritmo uniformemente acelerado”. A “barreira do som já foi há muito ultrapassada”. Agora, é o vosso tempo, o presente. Agora é o tempo em que os dois netos rapazes estão quase, quase a «bater à porta do Regimento de Cavalaria 6». Eu adianto-lhes que o endereço é: Regimento de Infantaria n.º 8.

Vocês já pensaram alguma vez ou já sabem que:

Quando a vossa Avó andou grávida das vossas respectivas mães, ainda não se faziam ecografias. E as gravidezes delas foram apoiadas por este exame?

Ou que a nível de Ensino Superior, estes vossos Avós frequentaram uma das três Universidades que havia em Portugal?



Mais de Bernardino Luís Costa

Bernardino Luís Costa - 26 Jan 2022

Dia 21/01/2022, de manhã ouvi, na R.R., do locutor uma frase, salvo erro de Júlio Isidro, com estas palavras “É bom visitar o passado, mas sem lá ficar” (não as garanto “sic”). Pois bem, remonto ao ano lectivo de 1985/86, que acolheu o “meu baptismo” na «e. s. a. s.». Voltava a “vestir-me” de caloiro”. […]

Bernardino Luís Costa - 5 Jan 2022

Ah, pois é! Nem na Escola nem fora dela é costume falar-se da guerra colonial. Estar-se-á à espera que acabem os ex-combatentes e ela «morra», para então se lhe fazer o «funeral» do esquecimento! “Este país é um colosso! Está tudo grosso!”. Diziam “Os Agostinhos” de 1981. Nesta enorme casa portuguesa tapam-se os olhos; não […]

Bernardino Luís Costa - 4 Ago 2021

O nosso país vive esta guerra amordaçado. Os jovens vão à força para África. Vão lutar contra o IN. Este luta pela sua independência. O orgulho obstinado de um país pluricontinental e plurirracial continua. O país está intoxicado com o mito do «Orgulhosamente Sós!», primeiro sob a ditatorial batuta de Salazar. Segue-se-lhe Marcelo Caetano. Que […]


Scroll Up