Espaço do Diário do Minho

“TIRADA” ALGO INFELIZ

4 Abr 2022
Narciso Mendes

Bem complicado este cronista! Quem o fez teve artes de engendrar singular criatura, contraditória, ondeante, inerte, ambígua, obscura…” (G. Junqueiro).

Desde há muito que nutro um certo respeito e admiração pelo professor, escritor, historiador, cronista, e comentarista, dr. José Pacheco Pereira (JPP). Porém, o que há dias li de um jornalista, num reputado jornal semanário, suscitou-me alguma perplexidade. Tal como havia tido daquela vez em que José Sócrates num célebre debate quinzenal, na Assembleia da República (quando este era primeiro-ministro e ele parlamentar do PSD), lhe atirou: – “ó senhor deputado não pense que está na “Quadratura do Círculo!” O que viria a deixá-lo de tal modo ‘amuado’, que cheguei a pensar vê-lo desfalecer.

Ora, o que ali marrava é que no programa “Circulatura do Quadrado” – que a ‘CNN Portuguesa’ resolveu mudar, e bem, para “Princípio da Incerteza” – que JPP, lá do alto da sua cátedra teve a seguinte “tirada”, a meu ver, algo infeliz: “quem defende a família quer o domínio do homem sobre a mulher”. Pelo que a este dito, pergunto: será que estaria melhor as pessoas viverem sozinhas ou, então, com criaturas do mesmo sexo, para ninguém exercer domínio sobre o outro? E, se assim fosse, o outro deixaria de existir? Ou achará melhor que as mulheres se apressem a separar-se dos maridos?

Já somos dois os que temos ouvido os mais variados ataques à instituição família, mas como este, de JPP, acho ser um dos mais refinados. Pelo que sendo ele um homem da cultura, confesso lamentar esta sua ideia ao dar de barato as famílias, há séculos pilares da ordem civilizacional e social no mundo, inspiradoras de imensas as obras literárias e cinematográficas há imenso tempo. Ademais, custa-me ver este ícone da literatura e do cometário político defender semelhante tese radical.

Já todos sabemos que JPP chegou a vaguear a sua psique, como muitos outros, pelo ‘comunismo’ e ‘maoismo’ de onde lhe ficaram algumas reminiscências doutrinárias que, por vezes, lhe escapam. Daí, talvez, sentir-se mais sintonizado com a doutrina esquerdista do que com a direita social em que o P. Marcelo se diz rever. Sendo por essas e por outras a que se deve o estado a que chegou o PSD. Um partido que só se poderá queixar da postura de alguns dos elementos da sua “família política” que se vão afastando da matriz ideológica “Sá-carneirista” em que, desde abril de 74, dizem militar.

A fazer coro com JPP, temos o caso de um seu homólogo no “Eixo do Mal”, da SIC notícias (SN) que quando critica minudências ao PS, logo a seguir desenrola um autêntico rolo de “arame farpado” e uma catrozada de mimos (como “facas” e “punhais”) às costas do PSD. Alguns deles bem mais contundentes que as do seu parceiro de painel – uma espécie de ‘sabichão-mor’ do reino, com tiques ditatoriais pró-marxismo.

Mas há mais. Nesse mesmo canal, aos domingos, mais um ‘social-democrata’ aí debita as suas titubeantes crónicas conseguindo, por vezes, desferir algumas “alfinetadas” aos da sua cor partidária – de que já foi ministro no tempo do ‘cavaquismo’ – acabando por ter contribuído para o ‘milagre’ da atual maioria absoluta do PS em Portugal.

Com efeito, estes e outros senhores que se dizem fiéis aos ditames da social-democracia e ao culto dos valores sobre que assenta a sua formação – bem como a da União Europeia em que Portugal se insere – desviam-se, por vezes, da rota. Dando de barato a família nuclear (pai, mãe e filhos) e o respeito pela vida humana da conceção até à morte. Prestando-se ao silêncio e, até, à anuência do desmantelar de alguns desses pilares e alinhando com as ideias de alguns falhados da sociedade.

Enfim, já não bastava existirem por esse mundo fora imensos detratores da família, eis que surge em Portugal quem se proponha dar-lhe o ‘golpe de misericórdia’. Como se ela fosse a causa de todos os males e frustrações da humanidade. Isto, sem que alguma vez hajam refletido sobre as consequências disso.



Mais de Narciso Mendes

Narciso Mendes - 15 Ago 2022

         Estive há uns dias com um amigo meu, das velhas andanças de juventude, agora, tal como eu, idoso e reformado. Só que desta vez achei-o algo taciturno, de semblante carregado e sem o humor que o caraterizava. Senti logo que algo de estranho se estava a passar com ele, uma vez que fora sempre […]

Narciso Mendes - 25 Jul 2022

Christine Ourmières-Widener, CEO da Transportadora Aérea Portuguesa (TAP), veio declarar à revista semanal Visão, com alguma ironia, o seguinte: – “quando um cliente compra um bilhete, tudo o que corre mal é culpa da companhia aérea”. Eu ainda sou do tempo em que era usada a velha máxima empresarial de que o ‘cliente tem sempre […]

Narciso Mendes - 18 Jul 2022

Não, não estou a pedir ao nosso Primeiro-ministro que tenha calma. Apenas decidi usar o título em epígrafe não só por coincidir com este tempo de verão e de férias, como por me lembrar de uns dias que passamos, enquanto casal e antes da pandemia, em Fuerteventura. Daí, que o presente texto se relacione com […]


Scroll Up