Espaço do Diário do Minho

“BOTAR DAS ALMAS”: UM RITUAL TRADICIONAL RETOMADO

1 Abr 2022
António Brochado Pedras

Esta noite, às 21.30h, na Capela de Guadalupe, desta cidade de Braga, por iniciativa da Paróquia e da Junta de Freguesia de S. Victor, inserida na programação cultural da Procissão da Burrinha, vai realizar-se o espectáculo musical polifónico do “Botar das Almas” que, em boa hora, há alguns anos a esta parte, a organização recuperou sob um figurino actualizado e com um mais apurado nível artístico.

Certamente, muitos dos meus estimados leitores ignoravam, como eu, que um ancestral ritual, ligado ao culto dos mortos, pudesse estar ligado também a uma tradição quaresmal, comum a muitas freguesias portuguesas, embora fosse mais corrente em Novembro, no chamado mês das Almas. Como provavelmente desconheciam as práticas observadas no decurso do respectivo cerimonial.

Ora tanto quanto apurei, a fonte mais citada a propósito da figura do “botador das almas” é a Revista de Guimarães, publicação da Sociedade Martins Sarmento, volume XII, de Janeiro de 1890, que o descreve assim: “Já noite entrada, o «botador das almas» ia pela encosta das montanhas a tocar a campainha e, na direcção dos povoados, trepava ao cume dos penedos ou ao alto das árvores e, logo ao primeiro badalar das Trindades, em voz alta, compassada e plangente, começava a rezar uma ladainha e exortava: irmãos, rezai um Padre Nosso e uma Avé Maria pelas almas que estão nas penas do fogo do Purgatório”, esclarecendo que, “nas caliginosas noites de Inverno, em vez da campaínha, levava o «botador das almas» uma lumieira”.

Mas, de uma maneira geral, o “botar das almas” traduzia-se num acto informal, consistente em cânticos dos fiéis que evocavam a memória dos entes queridos falecidos.

Esta prática tradicional persistia em muitas das nossas aldeias em finais do século XIX, havendo cessado completamente em meados do século passado.

O “Botar das Almas” que hoje renasce na Capela de Guadalupe é uma cerimónia artística mais elaborada, com um primeiro momento de cântico das almas no exterior do templo e um segundo momento de encomendação das almas, no interior, combinando músicas do cancioneiro minhoto da época da quaresma com “espirituais negros” de fundo bíblico. E tudo isto interpretado por grupos corais de reconhecido mérito: Grupo de Cantares Mulheres do Minho, Grupo Porta Nova e Grupo Coral de Guadalupe.

Perguntar-se-á: onde está a ligação deste ritual à Quaresma? A resposta que um humilde leigo como eu pode ensaiar resume-se em poucas linhas.

Para nós cristãos, a Páscoa da Ressurreição – passagem da morte para a vida – representa a celebração maior da Igreja: morto na cruz, Jesus de Nazaré venceu a morte e restaurou a vida, a vida eterna, a vida numa etapa superior, na plenitude do amor de Deus, em suma, a verdadeira vida.

A partir deste acontecimento transcendente, todos nós, simples mortais, somos convidados para essa nova vida, seguindo os passos do Redentor, a Sua palavra, o Seu exemplo, com a certeza de que o arrependimento sincero das nossas culpas merecerá o perdão divino.

Se é este, como acreditamos, o sentido da Páscoa, parece de todo apropriado e oportuno que, neste período quaresmal, para além da reflexão e transformação individual suscitadas pela paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, cuja centralidade é axiomática, evoquemos também a memória dos nossos entes queridos já falecidos, que saudosamente vivem nos nossos corações e nos nossos pensamentos, rogando a Deus pela páscoa deles.

É neste enquadramento que saúdo a recuperação da tradição do “Botar das Almas” e a sua inclusão na preparação da Semana Santa de Braga, no âmbito da programação cultural da Procissão da Burrinha, parabenizando os seus organizadores.



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