Espaço do Diário do Minho

Cabidela é no Minho

27 Mar 2022
António Lima Martins

A cabidela é essencialmente um prato típico do Norte, mas apreciado e reproduzido em todo o país e com presença forte no mundo, particularmente lusófono. Uns amam, a outros em nada agrada, talvez por ter uma expressiva componente de aproveitamento do sangue do animal que se cozinha. É predominantemente associado ao Minho, região em que é Rei, ao arroz de cabidela (há cabidelas de várias carnes), por muitos também conhecido como arroz pica no chão, apelando ao frango ou galinha que é alimentado sem ração, mas com o que campo concede. Goste-se, ou não (sou insuspeito porque não ser apreciador) temos de concordar com a força que o mesmo traz, os sabores das tradições, o despertar dos sentidos e a marca de um povo, de uma região.

São muitos os restaurantes que a apresentam como sua especialidade ou iguaria; não é de surpreender, portanto, que um movimento dos denominados amantes da cabidela, a Ordem da Cabidela criada pelas “Edições do Gosto” em 2016, tenha escolhido o norte, mais propriamente o Minho, para um dos seus pontos altos em 2022, um dos jantares das cabidelas em que celebram a gastronomia; são apenas sete os deste ano, momento de festa em ambiente – como sublinhado na sua apresentação – descontraído e informal, aberto a qualquer comensal que mostre interesse, com a presença de múltiplos cozinheiros nacionais de renome, de várias regiões de Portugal e em que cada um dá o seu toque a uma cabidela por si apresentada.

Bem perto de nós, em Vila Verde, teremos então no próximo dia 28 de Abril um desses convívios, evento e entronização com a presença de, entre outros, o chef António Bóia do restaurante lisboeta JNcQuoi que nos trará a degustação de “empadinha de cabidela de galo”, o estrela Michelin chef António Loureiro do restaurante A Cozinha em Guimarães com uma “cabidela de Pombo” ou o chef José Vinagre com uma “Harmonização do pica, da cabidela e dos legumes.

Não podia faltar a ex libris do Minho, “cabidela de pica no chão” trazido a repasto pelo chef Martinho Freitas do icónico Restaurante Torres.

Aliás, é este situado em Ponte S. Vicente (Vila Verde) quem é o anfitrião, o que em nada espantará pela sua identidade própria, guardião do segredo do seu já premiado arroz de cabidela, nomeadamente com o ouro no recente concurso nacional de cozinha tradicional portuguesa na Feira Nacional de Agricultura de 2020, e que se pode comprovar à sua entrada com placa alusiva ao feito.

Restaurante afamado, também recentemente agraciado com a medalha de prata de Mérito Municipal pelo notável trabalho de promoção da gastronomia vilaverdense e minhota.

Por esta e pelos sabores tradicionais que apresenta, pela referência que se tornou na região, merece a distinção por ser a sua marca Torres sinónimo de boa comida, de cheiro minhoto, de paladares característicos, sentido de saudade.

Tudo na continuidade do esforço de António Torres que trabalhou em restaurantes de topo como o Tavares Rico ou o Gambrinus de Lisboa e que vê, em comunhão de esforço e dedicação, o seu brilhar, sob a batuta dos seus filhos Fernando e Isaura e o olhar sempre vigil da Mãe destes a Dona Maria Augusta, animado pelos seus fieis e dedicados funcionários de sala Oliveira e Batista.

Vão, certamente, dar um novo e suculento alento ao evento da Ordem da Cabidela que lhe concede esta honraria, assim fazendo preservar e viver produtos de selecção nacionais na nossa memória colectiva.



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