Espaço do Diário do Minho

Até onde irá esta televisão?

19 Mar 2022
Manuel Antunes da Cunha

É conhecida a experiência de Stanley Milgram (1933-1984), que tinha por objetivo avaliar o grau de obediência e/ou de submissão face a uma autoridade considerada legítima, nomeadamente em situações suscetíveis de pôr à prova as convicções éticas. No início dos anos 1960, o psicólogo social norte-americano levou a cabo uma investigação laboratorial com três sujeitos: um primeiro no papel de “aluno”, incumbido de memorizar uma lista de palavras; um segundo no de “professor” – o único que não estava a par da situação – a quem competia validar os resultados e, finalmente, um “técnico” de bata cinzenta que encarnava a figura da autoridade. Cada vez que o primeiro dava uma resposta errada, o técnico instava o segundo a puni-lo com um choque elétrico de tensão crescente (15 volts extra de cada vez).

De acordo com os resultados, 62,5 % dos intervenientes levaram a experiência até ao fim, chegando a infligir descargas de 450 volts, que colocariam em risco o parceiro de circunstância, ignorando, todavia, que os choques e as reações deste – isolado noutra divisão – eram fictícios. Por sua vez, o papel do técnico consistia sobretudo em incentivar o professor-cobaia a prosseguir a experiência, desvalorizando eventuais suscetibilidades, apesar das queixas crescentes (do simples gemido aos gritos e pedidos insistentes para pôr um termo ao suplício, até aos desmaios simulados). Refira-se que o protocolo da investigação suscitou algumas críticas no meio académico, nomeadamente no que se refere à sua legitimidade científica e ética.

A questão da submissão à autoridade não deixou de despertar um interesse redobrado, numa altura em que o nazi Adolf Eichmann – a propósito do qual Hannah Arendt dissertou sobre a banalidade do mal – descartava qualquer responsabilidade nos crimes contra a humanidade cometidos durante a Segunda Guerra Mundial. “Não me sinto culpado”, reiterou perante os magistrados que viriam a condená-lo à morte (1962), considerando-se “um mero instrumento nas mãos dos líderes”. Não é, pois, de admirar que a experiência de Milgram tenha sido, desde então, replicada diversas vezes, em contexto de investigação ou de espetáculo mediático. Quase meio século depois (2006), por exemplo, o canal norte-americano ABC obtinha resultados semelhantes ao ensaio original.

Em março de 2010, o documentário Le jeu de la mort – hoje acessível no Youtube – foi difundido nos canais France 2 e TSR 2 (Suíça). “O que vamos visionar é extremamente duro, embora se trate apenas de televisão e de entretenimento”, começa por referir a voz-off, antes de apresentar uma nova versão da experiência de Milgram. No ano anterior, uma equipa pluridisciplinar liderada pelo psicólogo Jean-Léon Beauvois (1943-2020) selecionara um conjunto de candidatos para uma emissão-piloto de um pretenso concurso televisivo (La Zone Xtrême). Desta feita, o técnico fora substituído por uma conhecida apresentadora de televisão, acompanhada em estúdio por um público desconhecedor do caráter experiencial das gravações. No final, a taxa de submissão à autoridade (mediática) chegou aos 80%!

Oito em cada dez participantes consentiram acionar descargas elétricas que julgavam chegar aos 450 volts. Quando assomavam os escrúpulos, recorriam a uma série de subterfúgios de desculpabilização, (riso nervoso, levantar a voz, recurso à animadora e/ou ao público). O documentário procurava assim criticar a natureza cada vez mais impiedosa dos reality-show. Há quase vinte anos (2003), numa emissão em direto do canal britânico Channel 4, o ilusionista Derren Brown jogava à roleta russa. Felizmente, esse tipo de experiência extrema não passou a ser usual, mas os formatos alicerçados na humilhação e na eliminação tornaram-se banais.

O limiar de tolerância à violência, seja qual for a sua feição, é cada vez mais alto. O rebaixamento dos interlocutores passou a ser regra em muitos espaços do pequeno ecrã, mas também doutros media, das redes sociais e na esfera pública. Parafraseando o documentário, apetece perguntar: até onde irá esta televisão? até quando persistirá o nosso silêncio cúmplice?



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