Espaço do Diário do Minho

Menino e “bezerro” de ouro

19 Jan 2022
Abel de Freitas Amorim

A grande verdade é que muitos de nós vivemos mergulhados num conhecimento não sustentado pela realidade dos factos mas sim pelo que se diz e pelo que nos transmitem aqueles com mais poder para o fazer. A realidade é suplantada pela ideologia e suas promessas e, mesmo duvidando de muitas, uma grande maioria concebe uma vida de futuro ilusório, conscientemente aceite. Não importa considerar realidades que vão para além do nosso pensamento ou do nosso ser, o importante é o imanente, é o que nos facultam no imediato, são as migalhas distribuídas intencionalmente para cativar, mesmo que as mesmas já se encontrem depreciadas pelo aumento quase generalizado dos bens e serviços e pela inflação. Neste mesmo ambiente, em Fevereiro de 2005, foi apresentado publicamente o livro “O Menino de Ouro”, cujo tema central é a vida e obra do ex-primeiro ministro José Sócrates. Na apresentação deste mesmo livro “Sócrates, o menino de ouro do PS”, discursou com muita emoção, talvez até lágrimas, o ex-ministro Dias Loureiro que, entre muitas outras palavras, afirmou que Sócrates tem como princípio fundamental que “o interesse geral deve prevalecer sobre o interesse particular”. Este elogiado, Sócrates, que mereceu a confiança de milhões de portugueses, considerado por muitos como um verdadeiro estadista, para outros um novo Cavaco, os factos e o tempo não lhe deixaram mais do que uma auréola de um duvidoso e ilusório ídolo! É notório, ainda hoje, que a maioria da comunicação social quando se refere a este ex-ministro, Dias Loureiro, ou a ex-deputados, como Duarte Lima, os imputa ao seu partido originário (PSD). No entanto, estes mesmos senhores, à data do referido livro, já se tinham passado, de facto, com armas e bagagens, para o partido dominante do regime, onde se iniciam as leis e se proclamam muitos princípios, onde nunca ninguém nada detetou e denunciou, onde se proclama, quando convém, “à justiça o que é da justiça”, e onde, notoriamente, se proporciona uma justiça para os pobres e outra para os ricos, uma justiça para quem não tem poder e uma justiça para os poderosos que podem recorrer e, em muitos casos, empatar os processos até à prescrição.

Uma das lições mais importantes que podemos tirar da “adoração ao bezerro de ouro”, constantes do Antigo Testamento, é a maioria do povo considerar que está a beneficiar de um “bem comum”, que não existe, apregoado por um falso ídolo. O que existe é um nivelamento por baixo, maiores desigualdades sociais, mais pobreza e uma maior dívida pública. A propósito, afirmou um jornalista europeu “a esquerda (caviar) ama tanto os pobres que quando chega ao poder aumenta o número deles”. Em termos humanos a pandemia tem sido dolorosa para muitos. Mas não é sério, em termos macroeconómicos, comparar a bancarrota de 2011 e a crise social provocada pela Covid-19. Naquela não havia dinheiro nem solidariedade europeia e Portugal, com as suas políticas públicas, pôs-se a jeito para que os credores impusessem enormes sacrifícios a muitos portugueses. Agora, a crise pandémica foi para todos os países, há disponibilidade de recursos financeiros europeus, apenas não houve, à nossa dimensão, inicialmente, a melhor organização e planeamento para a afetação de todo o sistema de saúde. O ídolo de muitos, entre nós, a princípio proclamava a chegada da “bazuca”, agora é a “vitamina”. É o PRR (plano de recuperação e resiliência) que serve para aliciar e comprar votos, antecipar projetos e fazer promessas. Nada contra este plano, no entanto, a história diz-nos que uma coisa são os planos, outra são os resultados desses mesmos planos. A maioria dos recursos do PRR destinam-se à famosa reforma do Estado. Pelo contrário, a aposta deveria ser no investimento e modernização de todo o setor produtivo que nos permitisse a criação e transformação de produtos com valor acrescentado de modo a aumentar, cada vez mais, as exportações e a sermos menos dependentes do exterior. Tal alavancaria toda a economia portuguesa, permitiria o aumento generalizado de todos os salários e não apenas do mínimo, bem como o aumento de todas as pensões, ao menos ao nível da inflação Mas, o que importa é o poder pelo poder e, o mesmo ídolo, que se encontra sentado em cima da “bazuca” ou de uma “pipa” de milhões de euros, nada mais representa do que o tal “bezerro de ouro” para gáudio e ilusão de muitos portugueses, infelizmente cada vez mais para trás e pobres.



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