Espaço do Diário do Minho

Forças (des)Armadas da Guerra

5 Jan 2022
Bernardino Luís Costa

Ah, pois é! Nem na Escola nem fora dela é costume falar-se da guerra colonial. Estar-se-á à espera que acabem os ex-combatentes e ela «morra», para então se lhe fazer o «funeral» do esquecimento!

Este país é um colosso! Está tudo grosso!”. Diziam “Os Agostinhos” de 1981. Nesta enorme casa portuguesa tapam-se os olhos; não se mostra o “pecado” dessa guerra. Varre-se o lixo para debaixo do tapete, para o esconder das gerações pós 25 de Abril de 1974. Mas eu levanto uma ponta do tapete. As inspecções militares desses tempos são matéria igualmente “non grata” a opinar. Do poema que escrevi, «Ondas da Minha Tropa», transcrevo duas quadras:

«A tropa não omito. Só uma amostra para se ver.

Soía dizer-se ir às sortes. Não, era ir aos azares!

A tropa metia nessa época medo, era de feder.

A Junta tudo apurava; mancebo: “é para ficares”.

Dois braços e duas pernas a mexer, a condição

Para na tropa ficar apurado. O “defeito” mental

Não dava para livrar; nem esquizofrenia, afinal.

Foi para África mobilizado, mas voltou evacuado»

Na segunda quadra falo de um «defeito” mental». O visado era meu irmão, ano e meio mais velho. Era ele o esquizofrénico. Foi apurado para Administração Militar; e, mobilizado, foi parar à Guiné. Recebi dele, em Angola, um aerograma. Era gerente da Messe em Bissau: “É aquela messe!” Veio evacuado. Nas minhas férias, visitei-o no Hospital Militar, em Lisboa.

Depois de ter concluído o C.O.M. (Curso de Oficiais Milicianos), e colocado numa unidade (o R.I. 7, em Leiria), dei Instrução a cerca de setenta soldados recrutas pertencentes a uma Companhia de Serviços Auxiliares. Destes havia uma dezena que não podiam calçar as botas militares por causa das deformações que tinham nos pés.

Na Companhia a que eu pertencia, o cabo escriturário, da secretaria, sofria de epilepsia. Era um “aramista”, a sua “guerra” eram os papéis; e a espingarda automática que empunhava, a “G-3”, era a esferográfica.

Estes casos atrás referidos englobavam os não aptos para combater. Daí a conclusão que me parece evidente: todo o pessoal “sem defeitos” estava capacitado para pegar em armas; era a famosa expressão “carne para canhão”.

A deambular pela internet sobre o pior teatro da guerra, a Guiné, li: «Agora que o Jorge Cabral partiu na “barca de Caronte”, este livro [Histórias Cabralianas, do “embarcado”] vamos guardá-lo com enorme saudade e relê-lo, talvez com outros olhos». [in: blogue Luís Graça e Cª].

E, noutra parte, este blogue descreve como é sentido o desaparecimento de um militar, seja na família cá longe, seja lá em África, no aquartelamento do mato. Camões como que se antecipa ao tempo dos anos 1961 a 1974.

Cabeças pelo campo vão saltando,

Braços, pernas, sem dono e sem sentido,

E d’outros as entranhas palpitando,

Pálida a cor, o gesto amortecido”.

Da estrofe 52, Canto III; uma parte da Batalha de Ourique, em que os portugueses, comandados por D. Afonso Henriques, enfrentaram e venceram os Mouros um inimigo cem(?) vezes mais numeroso.

Em África, os comandantes, nos seus gabinetes, planeavam as operações nos mapas. E não teriam em conta que os reconhecimentos aéreos do terreno, complementares, quando feitos, eram ineficazes, eram ilusórios, pois escondiam trilhos e terrenos nas matas sob as copas das árvores.

No terreno, era a guerra na prática; os terrenos eram mais ou menos acidentados; as linhas de água, umas vezes secas e outras com água.

Sic transit gloria… de Portugal”. A “glória” de 500 anos foi-se com a História moderna, qual tsunami destruído pelos ventos da História, que evoluiu, que não parou nem estagnou.



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