Fotografia: Avelino Lima

D. Jorge propõe «gestos de amor» para recuperar alegria de viver em tempo de pandemia

Arcebispo presidiu pela última vez à Solenidade de Natal do Senhor na Catedral

Jorge Oliveira
26 Dez 2021

O Arcebispo D. Jorge Ortiga, na celebração da Solenidade de Natal do Senhor, apontou algumas sugestões para «recuperar a alegria de viver» neste tempo ainda marcado pela «noite» de pandemia.

Naquela que foi a última missa de Natal a que presidiu como Arcebispo, o prelado disse que são precisos «antídotos», assentes nos valores cristãos, para mudar o «rumo das coisas».

D. Jorge Ortiga desafiou os cristãos diocesanos, na Solenidade do Natal do Senhor, a olharem para o sofrimento da humanidade e a semearem «estrelas», propondo os compromissos do programa Pastoral da Arquidiocese que aponta caminho para uma igreja sinodal e samaritana.

«Tenhamos coragem de olharmos para as feridas. Em Natal, paremos e falemos. Não nos apeguemos ao negativo mas reconheçamos que são precisos antídotos que podem mudar o rumo das coisas. Por pequenas estrelas que sejamos, a noite vence-se unindo-as», disse.

Diante da assembleia reunida, ontem, na Sé Primacial, para celebrar o nascimento de Jesus, o prelado começou por propor a «estrela da fraternidade» num mundo «fragmentado», onde os povos «perseguem a sua história de tristeza, desgaste e cansaço».

«Fraternidade continua a ser palavra de dicionário pouco rezada. Precisamos de compaixão visível perante os inúmeros males que nos afligem», disse D. Jorge Ortiga, acrescentando que os cristãos não podem viver «indiferentes à dor», nem podem «deixar ninguém caído nas margens da vida».

Assim,  o Arcebispo sugeriu como remédio para a ausência de fraternidade gestos de amor, materializados, por exemplo, em visitas a quem sofre, pois uma «dor acompanhada torna-se mais suave».

Fomentar os laços em comunidade foi outra sugestão apontada na Missa de Natal por D. Jorge, segundo o qual «algo terá de mudar não só nos comportamentos exteriores como nos interiores».

«Temos de pensar e agir em comunidade mas estamos a magoar-nos frequentemente, particularmente com a indiferença e as palavras inoportunas que magoam e ofendem», disse.

Segundo D. Jorge, é necessário fomentar a aproximação nas comunidades para acabar com as «divisões, insensibilidade, anonimato, falta de comunicação e de transparência».

«As situações são muitas mais e mais variadas. O remédio que nos é proposto é o acolhimento»,  acrescentou. 

O Arcebispo,  Administrador Apostólico da Arquidiocese de Braga, convidou ainda a «semear estrelas» nas relações familiares, tantas vezes marcadas por situações de «fragilidade, de sofrimento, de feridas»

«As comunidades necessitam de se aproximarem mais das famílias para as acompanhar, ser capazes de caminhar lado a lado, de modo que se tornem capazes de superar as dificuldades que encontram no caminho, permanentemente o amor deve ser renovado e reencontrado o sentido para viver comunitariamente. Dá trabalho e não podemos fugir a ele. Há muitas feridas. Cuidar delas é cuidar da saúde da Humanidade», assinalou.

Nesta Missa de Natal e quando a Igreja prepara a próxima Jornada Mundial da Juventude, em lisboa, em 2023, o prelado referiu-se também aos jovens, defendendo ser «urgente acender a estrela que mostre o compromisso de cuidar das feridas dos jovens», principalmente daqueles que parecem andar «à deriva», sem «respostas certas e seguras».

D. Jorge Ortiga disse que a Igreja deve ir ao encontro deles, priviligiando «a linguagem da proximidade, do amor desinteressado, relacional e existencial que toca o coração, atinge a vida, desperta esperança e anseios».

«É necessário aproximar-se dos jovens com a gramática do amor, não com o proselitismo», acrescentou.

Cristãos desafiados a compromiso

efetivo com o cuidar do planeta

O Arcebispo desafiou ainda os cristãos a um compromisso efetivo» com a defesa  e o cuidar do Planeta, a «Casa Comum» como a ele se refere o Papa Francisco.

D. Jorge  defendeu que «não podemos adiar mais» este compromisso, quando estamos diante de «notícias dramáticas» e apelos constantes para a proteção da natureza.

 «Teremos de cuidar e fazer com que outros cuidem também. (…) Precisamos de gestos concretos que mostrem a nossa capacidade de proteger a natureza tornando-a verdadeira morada para todos com as condições adequadas para uma saúde equilibrada», preconizou.

Para o prelado, a ecologia integral «supõe um «compromisso efetivo» e  são os «gestos quotidianos das pequenas coisas que mostram o nosso  compromisso com a casa comum».

«Buscar apenas um remédio técnico para cada problema ambiental que aparece é isolar coisas que, na realidade, estão interligadas e esconder os problemas verdadeiros e mais profundos do sistema mundial», considerou.

D. Jorge Ortiga relacionou as alterações do meio ambiente e catástrofes naturais que têm acontecido em várias regiões com o estilo de vida atual em muitas sociedades, marcado pelo consumo e desperdício. Um estilo de vida que, acrescentou, é insustentável e superou as possibilidades do planeta.

Pandemia exige

responsabilidade coletiva

A crise pandémica foi  outro tema abordado na homilia de D. Jorge Ortiga.

O prelado referiu que, tal como no tempo do profeta Isaías, em que «desejava-se que a noite passasse e que emergisse uma aurora de concórdia e paz que oferecesse bem- estar material e espiritual». também hoje «desejamos ansiosamente que a noite avance e apareça a manhã de uma vida normal roubada pelo vírus».

A pesar de parecer haver um luz ao fundo do túnel, D. Jorge Ortiga disse que «não estamos livres de uma responsabilidade coletiva» e defendeu que  «algo terá de mudar, não só nos comportamentos exteriores como nos interiores».

«Se há regras a cumprir, há opções a assumir sintetizadas na certeza de uma interdependência que salva a todos ou condena a todos. Tiremos lições da noite», disse.

 Foi neste contexto que o Arcebispo propôs aos cristãos que procurem semear estrelas, estrelas que gerem «certeza no caminhar e esperança no viver».

«O Natal não permite pessimismos, mas a luz de Belém obriga a ser realista. A doença é de todos, é material, social, económica, sanitária. Antes de mais é de ausência de um humanismo integral onde emergem valores que começam a ser esquecidos. Peguemos neles como pequenas estrelas e a noite será vencida», disse.

O prelado incentivou a recuperar a alegria de viver com os gestos, reagindo ao que parece normal.

«Há outro mundo. Cristo nasceu para ele. Hoje os cristãos são os intérpretes deste mundo diferente. Poderá parecer tarefa ciclópica. Com a luz de Belém nas nossas intenções mudaremos muitas coisas. Não nos contentemos com as palavras. Apostemos nos gestos. Algo mudará», exortou.

 





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