Espaço do Diário do Minho

Um pedaço da Igreja que desaparece

30 Nov 2021
Tiago Freitas

Foi com surpresa, como de resto é habitual nestas situações, que li a notícia do encerramento do Centro Editorial Dehoniano de Bolonha. O processo de insolvência foi introduzido há já algumas semanas, mas a notícia veio apenas a público em meados deste mês, apanhando também de surpresa os actuais 25 colaboradores do Centro Editorial e vários autores que tinham os seus livros em processo de publicação.

Este é um daqueles casos em que, por se tratar de uma instituição da Igreja, se pensava que nada iria acontecer. Mas os sinais estavam aí. Já em 2014, o Capítulo Provincial dos Dehonianos tinha iniciado uma reflexão sobre a viabilidade económica do Centro Editorial. Reforçaram o seu empenho no projecto, mas alertaram, desde logo, para a necessidade de rever as áreas mais deficitárias e, se possível, incluir novos sócios ou então vender parte da sociedade. De 60 funcionários foram progressivamente reduzindo para 25 e procuraram, sem sucesso, novos investidores. O golpe final foi a crise económica provocada pela COVID-19. Como relata o provincial, P. Enzo Brena, “o caminho iniciado dava sinais positivos, com boas perspectivas de cessação/venda, mas a crise provocada pela COVID, a acrescentar aos problemas estruturais (ex. número e nível salarial dos funcionários) criou uma situação impossível de gerir”.

Não existiu, até este momento, alguma investigação teológica em que não tenha recorrido a algum livro das Edições Dehonianas de Bolonha (EDB). Estou a olhar para a minha secretária e tenho pousados cinco livros sobre a sinodalidade que comprei há cerca de um mês. Todos da EDB.

O contributo desta editora para a formação pastoral e teológica da Igreja é incalculável. Abriu portas nos anos sessenta, no arranque do Concílio Vaticano II, e desde então publicou cerca de 8400 títulos, vendeu milhões de livros, contribuindo assim para o crescimento da área bíblica, catequética, pastoral, teológica e espiritual, e potenciando, ao mesmo tempo, reflexões dos maiores teólogos contemporâneos. Não se pode ainda esquecer outras publicações estruturais como a Bíblia de Jerusalém, o Enchiridion Vaticanum ou as cerca de vinte revistas académicas e pastorais.

Com o encerramento da EDB há um pedaço da teologia, da cultura, e da própria Igreja que desaparece. Portugal não está imune a um cenário parecido. Bem pelo contrário. Basta pensar na Gráfica de Coimbra, na Livraria “Verdade e Vida”, em pequenas livrarias que encerraram ao longo destes dois anos, bem como diversos jornais diocesanos que correm o risco de desaparecer, ou de serem forçados a alterar a sua periodicidade como consequência da diminuição de assinantes e aumento do custo com a matéria-prima. Realidades que já aconteceram, ou que podem vir a acontecer, e que comprovam que não é pelo facto de pertencerem à Igreja que não se encontram em risco.

O triste desfecho da EDB é mais um sintoma da crise que se instalou na cultura teológica. Não falo dos materiais pastorais e catequéticos e dinâmicas. Esses ainda vão tendo lugar porque servem um propósito: serem um instrumento prático à acção pastoral. Refiro-me a uma cultura de fundo, aquela que dá corpo à “imaginação cristã” (Cardeal Newman) e que estimula a inteligência a pensar sobre os fundamentos da fé. Os cristãos precisam de ler os clássicos da teologia e da espiritualidade, de estudar a Palavra de Deus e de investir na cultura, se quiserem crescer na fé. Caso contrário apenas lhes resta o fideísmo, isto é, desligar a razão para aceitar acriticamente elementos de fé, o que na prática se traduz num empobrecimento da cultura cristã.

Por outro lado, todos nós temos cota parte de responsabilidade neste cenário. Editoras como esta encerram porque a base de leitores é reduzida. E isso não nos deve deixar sossegados. Fica mais pobre a Igreja. Ficamos todos mais pobres.



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