Espaço do Diário do Minho

Verdade, liberdade e a eutanásia

19 Nov 2021
Abel de Freitas Amorim

Um dos fundamentos do Ser Cristão é o acreditar na vida eterna e que, perante essa realidade, Deus não é um Deus dos mortos mas sim de todos os seres Humanos que vivem, quer no mundo físico quer no metafísico. É o acreditar que Deus, entre outras Verdades, é omnipresente e que, perante esta verdade, revelada e confirmada por Cristo, Deus Humanado, nunca poderemos conceber e afirmar que Deus não está interessado em toda a nossa vida, nomeadamente no que se passa no nosso quarto. Diz-nos Jesus Cristo, claramente: “Tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, ora a teu Pai (Deus); e teu Pai, que vê o que se passa em segredo, te dará a recompensa”. Como afirmamos, para os Cristãos deveria haver uma só forma de conceber o ser Humano: homem e mulher ou mulher e homem, amando-se no âmbito da Lei Natural que, nas suas diferenças e complementaridades, não são superiores nem inferiores um ao outro. Sim, nas suas diferenças de mulher e homem, porque na sua essência, por mais transformações que existam, por mais ou menos hormonas que tomem, por mais cirurgias que façam existirá sempre, na sua natureza interior, um feminino e um masculino que vão para além das transformações superficiais operadas no corpo. Quando alguém, na posse da sua liberdade, publicamente se revela como homossexual, não obstante o respeito que todos os seres Humanos nos merecem, apesar e para além dos aplausos do lobby gay, com forte implantação nos meios de comunicação televisivos, e do politicamente correto na nossa sociedade, a revelação não nos merece qualquer relevância que não sejam algumas contradições nos seus argumentos. E não nos merece qualquer relevância social porque a sua revelação apenas nos faz refletir sobre os verdadeiros valores da sociedade, dos seculares valores familiares e das causas e efeitos, nomeadamente da preservação da espécie Humana. Embora o tal politicamente correto não esteja interessado em tal, era bom considerar, em proporção, a violência e até mortes ocorridas em relações amorosas de pessoas do mesmo sexo. Pensemos, apenas, em dois acontecimentos mais recentes que se tornaram públicos: a morte violenta e desumana de um jovem, no Algarve, alegadamente de autoria de duas mulheres, enamoradas, que pretenderam ver-se livre desse mesmo jovem que tinha uma relação com uma delas; a morte violenta, numa residencial do Porto, de uma mulher, cuja alegada autoria do crime, é de outra mulher que, com a vítima, mantinha uma relação.

Considerado também um empirista e racionalista, na sua obra menos conhecida, “A Paz Perpétua”, Immanuel Kant, numa fase madura da sua vida, caldeado o seu pensamento por um ambiente de raiz pietista e teses de modernidade, diz-nos que a razão esclarecida é a razão educada, encarada como razão maior ou razão pura e que pode, ela mesma, pôr-se em contacto com as verdades espirituais. Que o progresso do Homem passa pela coexistência da virtude individual e da liberdade social, garantidas por uma constituição política. Que embora a liberdade individual seja uma condição necessária, o seu objetivo fundamental é o bem comum que se lhe sobrepõe. Deste modo, a paz perpétua, emanada do pensamento kantiano, é uma possibilidade se triunfar a moral e o direito assente na razão Humana virtuosa. Tendo por base um conceito enviesado de liberdade individual, no Parlamento, com dissolução anteriormente anunciada por quem de direito, no passado dia 05 do mês corrente, apressadamente, quase sempre os mesmos atores das questões fraturantes da nossa sociedade, aprovaram de novo a designada “lei da eutanásia”. Estes atores, que na matéria se consideram evoluídos, ideologicamente não lhes interessa, em qualquer circunstância, o valor inviolável da vida, constante da Constituição da República Portuguesa, e subestimam o bem comum como característica primordial numa sociedade democrática. Para aqueles que teimam apenas na primazia da liberdade individual, em nome de um duvidoso humanismo, deveriam pôr de parte preconceitos ideológicos e, de uma vez por todas, contribuírem para o bem comum. Em caso contrário, não obstante a melhor compreensão para o sofrimento de alguns, que um Estado que se diz moderno tem obrigação de, com a melhor implementação de cuidados paliativos, minorar ao máximo, iremos passar a viver num país de carrascos e vítimas, onde a rampa deslizante atuará, onde as mortes precipitadas e inocentes irão acontecer e onde o direito à vida e a viver, para infelicidade da maioria dos portugueses, que os mesmos atores não querem ouvir, já não é inviolável.



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