Espaço do Diário do Minho

A simplicidade de Merkel

11 Nov 2021
Silva Araújo

1. Filha de um pastor luterano, Angela Dorothea Merkel nasceu em Hamburgo, em 17 de julho de 1954, na então Alemanha Ocidental, e mudou-se ainda criança para a Alemanha Oriental. Doutorou-se em química quântica e trabalhou com pesquisas científicas até 1989, ano em que entrou na política. Em 2005 Foi eleita chanceler da Alemanha, cargo que manteve durante quatro mandatos. Foi também líder do partido de centro-direita União Democrata-Cristã (CDU) de 2000 a 2018. Consideraram-na a líder de facto da União Europeia, a mulher mais poderosa do mundo e a “líder do Mundo Livre”.

2. Transcrevo excertos de um texto de José Brissos-Lino publicado em 21 de outubro no jornal digital «7margens» intitulado «quando a fé faz a diferença na política». Destaca a simplicidade de Merkel que, também na política, tem procurado agir em coerência com a fé.

Escreve: «Angela Merkel preservou sempre com todo o cuidado a sua vida pessoal e privacidade. Por exemplo, nunca convidou um chefe de Estado ou de governo para o seu apartamento em Berlim ou a sua dacha em Brandeburgo.

Cultivou um estilo de vida simples, austero, continuando a morar no mesmo apartamento antes e depois de ir para o Governo, um apartamento normal como qualquer cidadão e comportava-se como uma mulher comum que ia às compras e cozinhava sempre que podia. Nunca cedeu aos luxos, nem sequer tinha uma empregada em casa porque dividia as tarefas domésticas com o marido.

Muita gente reparou que vestia sempre o mesmo modelo de roupa trocando apenas de cor, e muitas dessas peças de vestuário chegaram a passar pela costureira para encolher ou alargar segundo a necessidade. Quando questionada por jornalistas sobre a forma de vestir respondeu que tinha sido eleita para dirigir a Alemanha e não para pisar a passerelle num desfile de moda.

Em termos familiares Merkel manteve sempre contacto regular com a mãe, em especial por telefone dada a falta de tempo decorrente das responsabilidades governativas. Deixava sempre com o seu discreto marido, o químico Joachim Sauer, a decisão de a acompanhar ou não nas constantes viagens oficiais, mas as despesas dele nunca foram incluídas nas despesas por conta do Estado».

«Merkel, acrescenta, é uma mulher crente em Deus: “A fé e a religião são o alicerce sobre o qual eu e muitos outros contemplamos a sagrada dignidade do ser humano. Nós vemo-nos como uma criação de Deus, e isso guia as ações políticas. A fé em Deus facilita-me muitas decisões políticas”.

Mas não é sectária. Em 2015, num debate público na Universidade de Berna (Suíça) e questionada sobre o risco de “islamização” da Europa, lembrou que a melhor resposta à situação seria ter “a coragem de ser cristão, sabendo como promover o diálogo [com os muçulmanos], retornar ao culto na igreja e mergulhar novamente na Bíblia”.

3. Diversas vezes referi as fortes convicções cristãs dos pais fundadores do que hoje é a União Europeia. Schuman, Adenauer, De Gasperi… Que bom será se outros lhes quiserem seguir o exemplo!

O Cristianismo autenticamente vivido dará origem a uma sociedade cada vez mais humana, mais fraterna, mais justa, mais solidária.

Levará a que o exercício do poder, a todos os níveis, seja uma forma de servir a comunidade; qualquer comunidade.

O mal é quando o poder sobe à cabeça. Quando, em vez de servirem, as pessoas se servem. Quando o poder dá origem a diversas formas de exibicionismo. Quando o parecer se sobrepõe ao ser e o grande objetivo é o ter de qualquer maneira. Quando o poder é usado para impor caprichos ou teimosias. Quando os detentores do poder se esquecem de ser exemplo de moderação; de agir segundo uma correta escala de valores e de observar uma sensata lista de prioridades. Quando cedem à tentação das mordomias e dos privilégios. Quando se escravizam a ideologias prejudiciais ao bem comum.



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