Espaço do Diário do Minho

Ser pai hoje

10 Nov 2021
Dinis Salgado

Ainda sou do tempo da atribuição ou distinção natural de tarefas familiares: à mãe competia cuidar dos filhos e da vida de casa e ao pai garantir o sustento, bem-estar e segurança de toda a Família; e, por isso, se dizia com toda a propriedade que a casa era o mundo das mulheres, enquanto a rua era o mundo dos homens.

Todavia, com os avanços da economia, da tecnologia, da divulgação e imposição de ideologias revolucionárias, progressistas e libertadoras, inclusiva da libertação da mulher, hoje a vida em Família muda de paradigma e o papel do pai volta-se mais para tarefas de acompanhamento dos filhos e cuidados e tarefas da casa; pelo que já é vulgar e comummente aceite ver o pai, nestas circunstâncias, abrandar o ritmo do seu trabalho profissional e até suspendê-lo temporariamente para responder às necessidades e urgências familiares.

Por isso, estudos recentes sobre a parentalidade referem que 87% dos pais brincam com os filhos, 84% afirmam usufruir a baixa de parentalidade, 56% dão refeições aos filhos, 51 % deitam e adormecem os bebés e 49% mudam fraldas, dão biberão, colo e transportam carrinhos com os bebés; e esta realidade muda seriamente o conceito ancestral da divisão das tarefas de mães e pais e levanta sérios problemas com a constituição e funcionamento da Família, mormente, com as dificuldades que os novos casais enfrentam face aos vários fatores sociais que obstam ao sucesso individual e profissional, porque causadores são de problemas anteriores e posteriores ao casamento.

No grupo dos primeiros surgem fundamentalmente o investimento no namoro, na escolha do cônjuge, na formação da personalidade, da afetividade e da respeitabilidade de cada nubente e , no grupo dos segundos, imprescindíveis se tomam o diálogo, o afeto e a tolerância entre o casal, bem como a cultura da fidelidade, do perdão e da partilha; e sempre presente e reforçada deve estar a opção afetiva, porque como diz Scheler o verdadeiro amor é sempre uma escolha; e, então, daqui se conclui que o verdadeiro casal nunca, cada noite, se deve deitar como levantar de costas voltadas.

Pois bem, perante as profundas mudanças de mentalidade, de organização social e profissional, de avanços tecnológicos e transformações socioeconómicas e políticas, as famílias enfrentam sérios problemas de estabilidade e sustentabilidade, mormente físicas e afetivas; e, daqui resulta a necessidade urgente da criação de legislação que promova e assegure o papel do pai como elemento cada vez mais presente e ativo na vida familiar.

Por exemplo, nos trinta dias seguintes ao nascimento de um filho, o pai deve ficar obrigatoriamente em licença parental de quinze dias úteis, cinco dos quais gozados de modo consecutivo e a seguir ao nascimento e pagos a cem por cento (100%); e, ainda, o pai deve poder usar mais dez dias úteis de licença parental, seguidos ou interpolados, e pagos igualmente a cem por cento (100%), desde que gozados em simultâneo com a licença da mãe; e igualmente o pai deve ter direito a ser dispensado do trabalho, tal como a mãe, a fim de prestar assistência ao filho ou filhos menores de 12 anos, em caso de doença ou acidente, bem como a trabalhar em horário flexível ou a tempo parcial também até aos doze anos de idade dos filhos e a solicitar outras formas de organização do trabalho, por exemplo, teletrabalho, para a conciliação com a vida da Família.

Pois é, se queremos Famílias organizadas, estruturadas, sólidas, educadoras e consequentemente felizes, muito trabalho legislativo e boa vontade dos políticos se requer; e, sobretudo, uma declarada aceitação das mudanças familiares que acontecem a cada momento, seja pela imposição de ideologias vanguardistas, seja pelas exigências tecnológicas e de organização do trabalho; ademais, é também por aqui que pode começar a luta contra o inverno demográfico que estamos a vislumbrar num futuro não muito distante.

Depois, uma das missões fundamentais da Família é a procriação como elo de união e consagração de afetos, bem como a educação integral e sólida dos filhos daí resultantes que serão elementos básicos, dinâmicos e construtivos do futuro da sociedade e garantia evidente da manutenção da espécie humana de que fazem parte.

Então, até de hoje a oito.



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