Espaço do Diário do Minho

Em memória do historiador Vitor de Sá

21 Out 2021
Narciso Machado

A Universidade do Minho está a comemorar o centenário do nascimento de Vitor de Sá (1921-2004), político e historiador.

Segundo notícia do Diário do Minho de 15.10.21, do programa das comemorações salienta-se:

1 – Colocação, em acesso aberto, em formato digital, do espólio que Vitor Sá doou à Biblioteca Pública de Braga, tomando a iniciativa mecenática do Prémio de História Contemporânea com o seu nome, sendo promovido pelo Conselho Cultural do Universidade do Minho.

2 – Apresentação pública de uma reedição atualizada do livro “A crise do liberalismo e as primeiras manifestações das ideias socialistas em Portugal” (1820-1825).

3 – Recordar o político que encontrou na investigação histórica novos caminhos.

4 – Recordar a atividade de Vitor Sá na democratização do acesso à cultura e na defesa dos direitos humanos.

Na sessão de abertura, ocorrida em 14.10.21, segundo o Diário do Minho, o historiador da UM, José Viriato Capela sublinhou o contributo de Vitor de Sá “para o avanço da investigação histórica, ao abordar novos temas para a historiografia contemporânea” e na formação de novos historiadores” (cf. DM de 15.10.21)

Os autores que têm escrito sobre vida e obra de Vitor de Sá, ou com ele conviveram na atividade política e docente, são unânimes em salientar a sua preocupação científica que punha na suas investigações históricas, “estimulando todos os estudantes a elaborarem trabalhos de pesquisa”. (cf. na internet (Google): Henrique Barreto Nunes – Livros e as Bibliotecas na vida de Vitor de Sá; e In Memoriam – Gaspar Martins Pereira e Luís Alberto Alves; e Suplemento Cultural do DM, de 13/10)).

Das múltiplas facetas atribuídas a Vítor de Sá, pretendo apenas abordar aqui, ainda que sumariamente, a sua qualidade de historiador/investigador. Para enquadramento do tema, importa revisitar a historiografia portuguesa quanto ao método científico na investigação da história.

Sabemos que a respeito de factos que ocorreram na alta Idade Média, os historiadores medievais e outros, no decorrer dos tempos, não hesitaram em alterar as narrativas dos acontecimentos para melhor atingirem os seus objetivos, ou seja, era mais importante louvar as “virtudes” das personagens do que procurar a verdade.

A história narrativa tem como finalidade única a pura descrição dos factos e personagens do passado. Não intenta teorizá-los, mas apenas transmitir o seu conhecimento aos vindouros. Constitui, sem dúvida, a primeira e a mais simples forma de conceber a disciplina de história. Aí se incluem as crónicas, os anais, as genealogias, os relatos dos acontecimentos relevantes ou as listas cronológicas de reis e de outras figuras.

Até ao séc. XIX, os historiadores pensavam através de “narrativas” e não através de fontes “documentais” (diplomáticas) e quanto mais simples essas narrativas fossem melhor. Esse modo de pensar a história alterou-se profundamente a partir de Alexandre Herculano (1810-1877) que iniciou o método científico, obedecendo a métodos rigorosos de investigação e de análise. Em resumo, abandonou-se a “crónica dos reis” e passou-se para uma “história da Nação”.

Só foi possível chegar a este modelo com a evolução, desde o séc. XVIII, dos alicerces culturais e filosóficos dos tempos modernos, onde avultam as reflexões epistemológicas kantianas e positivistas.

Assim, a conceção do método de investigação histórica de Herculano contrastava com a visão tradicional, cuja última finalidade era, por vezes, o patriotismo e a exaltação nacional ou regional que, levados ao extremo, conduziam à opacidade e à distorção da história.

A preocupação de rigor na procura da verdade histórica é manifesta nos escritos de Vitor de Sá, desde logo, pelo facto de, em 1969, ter rumado a França para aprofundar conhecimentos científicos e obter o doutoramento em história, pela Universidade de Paris (Sorbonne).

O pensamento de Vitor de Sá, a respeito do método cientifico a aplicar nas suas investigações, está bem patente no texto da sua autoria, “A Historia em discussão” – Lx. 1975- D. Quixote, pag. 20, texto citado por Gaspar Martins Pereira e Luís Alberto Alves:

Vítor de Sá acreditava “na história como instrumento de cidadania, chave de reflexão e de diálogo, para repensar Portugal e o mundo”. Para ele, “história, conhecimento nacional, crítico e sistematizado das grandes linhas de evolução ou transformação das sociedades é tomada de consciência do homem considerado coletivamente”.

É que “o passado não vale por si, exclusivamente, mas sobretudo pelo que responde às inquietações do presente. Ao mesmo tempo, é da visão dos factos contemporâneos que subimos até à compreensão dos factos pretéritos. O historiador que seja apenas o descobridor ou colecionador de factos passados, aquele que se fecha nos arquivos, de olhos serrados à realidade contemporânea e que cerca, mais tenderá a mitificar a história que a cientificá-la. É preciso ser cidadão na sociedade contemporânea, intervir nela, para compreender a sociedade remota. Este historiador-cidadão é o que estará apto a interrogar o passado e dele recolher respostas válidas às inquietações presentes e à abertura de caminhos para o futuro”.

A faceta filosófica de Vitor de Sá está igualmente patente nos seus escritos. E compreende-se, de resto, que assim seja, porquanto, a história e a filosofia constituem, de certo modo, denominadores comuns, pois, embora partindo de ângulos diversos, consideram a globalidade do homem, ao passo que as demais disciplinas o tomam apenas em cada uma das suas várias expressões ou significações.



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