Espaço do Diário do Minho

Sinais dos tempos, ilusões perdidas?

16 Out 2021
Manuel Antunes da Cunha

À primeira vista, as três notícias parecem pouco ou nada terem em comum. Os factos, que ocorre(ra)m estes dias, em França, dizem respeito a uma fotorreportagem sobre pirataria informática, a uma peça de jornalismo de investigação sobre fuga ao fisco e à estreia de “Les illusions perdues”, longa-metragem baseada no romance homónimo que Balzac publicou, sob a forma de tríptico, entre 1837-1843. Bem vistas as coisas, talvez encontremos aqui alguns sinais dos tempos que nos devem inquietar e incentivar à mudança.

17 de setembro: O fotógrafo Jonas Bendiksen (Agência Magnum) revela que a sua reportagem sobre jovens hackers da cidade macedónia de Veles, exibida dias antes num festival internacional de fotojornalismo, afinal era falsa. “Trata-se – segundo o autor – de uma fake news sobre os produtores de fake news”. A história é verdadeira, mas o texto e as fotos nem por isso. Efetivamente, em 2016, mais de 100 websites transformaram aquela localidade de 55 mil habitantes num dos epicentros de produção de notícias falsas que terão contribuído para a eleição de Donald Trump. Contudo, o texto desta reportagem foi inteiramente redigido através da inteligência artificial e as personagens são seres virtuais oriundas da Internet.

Apresentado na mostra “Visa pour l’image”, em Perpignan, o trabalho teve uma receção positiva, não suscitando qualquer desconfiança por parte dos especialistas. Embora tenha sido fabricado com recurso a programas informáticos em acesso livre já ultrapassados, ninguém deu pelo engodo. O objetivo da manipulação era chamar a atenção para a facilidade com que acreditamos e propagamos imagens falsas – desde que convenham à nossa visão do mundo –, por exemplo nas redes sociais. Já não é certo que uma imagem valha mais do que mil palavras.

7 de outubro: Em horário nobre, o serviço público francês de televisão difunde uma grande reportagem (97 mn), doravante disponível na plataforma Youtube, intitulada “DSK, enquête sur un homme d’influence”. Só em França, no âmbito do escândalo internacional dos “Pandora Papers”, foram contabilizados cerca de 600 envolvidos na fuga massiva ao fisco. O magazine “Cash Investigation” (France 2) passou meses a investigar a mais conhecida dessas figuras: Dominique Strauss-Kahn, ex-ministro da Economia e das Finanças e ex-diretor-geral do FMI, que provavelmente teria sido eleito presidente da República, não fosse o escândalo do Sofitel.

Os jornalistas foram a Marrocos, ao Congo e aos emirados do Dubai e de Ras Al Khaimah para contactar advogados, homens de negócios, líderes africanos, assessores, fiscalistas e um ex-comissário europeu. Calcula-se, só neste caso, em mais de seis milhões de euros o valor que o fisco poderia ter recebido em cinco anos. Ao invés, DSK valeu-se da sua posição e conhecimentos para contornar uma lei que o cidadão comum deve respeitar. Em Portugal, parece que nada de relevante aconteceu. Dão-se três nomes e passa-se à notícia seguinte. É verdade que os nossos media não têm os mesmos meios e recursos humanos, mas a questão não é só essa…

20 de outubro: é a data prevista para a estreia de “Ilusões perdidas”, uma adaptação cinematográfica daquele que é considerado um dos melhores romances de Honoré de Balzac e que constitui, entre outras, uma crítica acerba do jornalismo, aqui assimilado a um universo corrompido até à medula. Todo o aspirante a jornalista deveria ser obrigado a ler este clássico da literatura mundial para conhecer algumas derivas a que tão nobre atividade está sujeita. A ver vamos se o filme faz jus à obra. Poderia preencher esta crónica apenas com citações de Balzac (1799-1850) sobre o jornalismo. Deixo ao leitor apenas três (tradução nossa):

– “A influência e o poder do jornal estão na sua alvorada, diz Finot, o jornalismo está na infância, vai crescer. Daqui a dez anos, estará totalmente submetido à publicidade”;

– “Sempre que vir uma imprensa implacável contra um poderoso, saiba que há por detrás descontos recusados, serviços que não foram prestados”;

– “A resignação é um suicídio quotidiano”.



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