Espaço do Diário do Minho

Marcas da Nossa Guerra 1961 – 1974

4 Ago 2021
Bernardino Luís Costa

O nosso país vive esta guerra amordaçado. Os jovens vão à força para África. Vão lutar contra o IN. Este luta pela sua independência.

O orgulho obstinado de um país pluricontinental e plurirracial continua. O país está intoxicado com o mito do «Orgulhosamente Sós!», primeiro sob a ditatorial batuta de Salazar. Segue-se-lhe Marcelo Caetano. Que esconde ao doente ter em suas mãos o poder que era dele. Todos fingem diante de Salazar. É a palavra de ordem. Fingem ou temem-no ainda? O sucessor recebe a estrutura montada. Mas está manietado. O seu poder é limitado. Não tem as mãos livres para alterar o rumo da história. O séquito de «acólitos» políticos, económicos e sociais, mantém-se. A polícia política encarrega-se de assegurar os valores do Estado Novo, mesmo que isso implique matar, torturar ou censurar; é ela que “risca com o lápis azul”.

O governo português insurge-se contra a audiência concedida pelo Papa Paulo VI aos líderes independentistas africanos, no final da Conferência Internacional de Solidariedade com os Povos das Colónias Portuguesas, em 01 de Julho de 1970. Terá sido uma das manobras com maior êxito na campanha de divulgação a favor dos movimentos de libertação das antigas colónias portuguesas.

Nunca entendi a ordem de comando dada de Lisboa para defender os territórios portugueses da Índia. Foi ditada por uma só pessoa, que dominou o poder ditatorialmente, que teimou até ao fim num Portugal “Orgulhosamente Só”.

Salazar não aceitou negociar. A pressão da Índia veio à tona. Mas o “pigmeu” português inchou. O ditador ordenou às tropas na Índia: «Sinto que apenas pode haver soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos». O general Vassalo e Silva desobedeceu. Dada a desproporção de forças decidiu a rendição. Seis meses de cativeiro. Recepção fria em Lisboa. Alguns militares condenados. O general foi sujeito a tribunal militar e foi expulso do exército. Veio a ser reintegrado após o 25 de Abril de 1974. Ganhou o epíteto de Vacila e Salva. [In: Wikipédia]

No fim, em Lisboa, condecora-se a título póstumo um alferes caído em combate. A medalha recebida pela família é luto e dor. É choro e um lugar vazio à mesa. É saudade. É a amputação de um membro do corpo familiar. É uma sepultura no cemitério da terra. É o corte de uma flor.

Mais tarde, em 1967, O Papa Paulo VI agenda uma visita a Fátima. Instala-se um conflito entre as duas personalidades.

«Salazar deixa claro que percebe que o Papa Paulo VI não gosta dele, não gosta do regime dele. Há uma anedota que ele conta… Não é claro que seja literalmente verdade; mas seja ou não, é realmente significativo que ele conte essa história, em que diz que, quando é recebido pelo Papa, se dirige a ele como Sua Santidade e que o Papa lhe responde com um “Sua Eternidade”». [In: R.R. – 08/05/2017 – Filipe d’ Avillez]

Os comandos das tropas em África eram uma pirâmide com o vértice na capital, em S. Bento. Mas Salazar nunca pôs os pés em nenhuma das «suas províncias ultramarinas». É direito de mais para dar o braço a torcer.

Eu também estive lá na guerra. Entre 1968 e 1970 errei pelas matas dos Dembos, em Angola. Fossei no capim. Limpei o meu suor do rosto às mangas, numa mistura de pó desse capim e suor. Engoli e escarrei carradas do pó das picadas, apesar do lenço no nariz e dos óculos plásticos de protecção. Evitei enfrentar o IN. Ele armou-nos emboscadas. Não caí numa em que ele pôs o “isco”, uns chifres com as pontas espetadas no chão e uma lata ao lado.

Correram rios de sangue, primeiro do nosso contra o dos movimentos de libertação. Após a independência, na guerra civil, durante cerca de trinta anos. Doeu-me. Dói-me ainda. É que vivi uma parte da minha juventude em Angola.



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