Espaço do Diário do Minho

Para entender, leia até ao fim…

27 Jul 2021
Ricardo Soares

Meus Senhores e Minhas Senhoras aviso desde já que seguramente algum de vós não vai gostar de ler o que tenho para dizer. Hoje o meu texto será sobre a 30.ª Feira do Livro de Braga e contém um elogio, uma crítica e uma sugestão. Para entender, leia até ao fim… porque a crítica e a sugestão podem ser para si, se lhe servir a carapuça!

Elogio…

o regresso do certame ao formato presencial organizado pelo Município de Braga e a InvestBraga em estreita colaboração com a Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, a dstgroup e a Book Company. A Feira do Livro de Braga adaptou-se ao contexto de pandemia e apresentou-se numa conjugação entre o físico e o online, o espaço – Altice Forum Braga – cumpriu as melhores condições de segurança e conforto aos livreiros e visitantes. Além disso, a organização garantiu que os livreiros e alfarrabistas não tivessem nenhum custo com a afectação dos espaços e tiveram lojas online, assumindo a InvestBraga e o Município o custo das taxas e dos portes de envio das encomendas. Este ano distinguiram-se no programa personalidades da história e da cultura de Braga nomeadamente Sebastião Alba, António Variações, Maria Ondina Braga e Mestre José Veiga e conjugou-se com entrevistas, debates, tertúlias e apresentações de livros com espectáculos musicais e a criação de um painel de azulejos colectivo, a cargo de 14 mulheres. Sem dúvida um alento optimista que os organizadores proporcionaram às estruturas culturais, aos criadores e aos seus públicos, devolvendo-lhes espaço de actividade e reforçando a sua importância na dinâmica da cidade. A toda a organização – todos sem excepção –, expositores, participantes e visitantes os meus parabéns.

Crítica…

na minha opinião, a fraca adesão das pessoas num evento multicultural e que irradia leitura, de forma amplamente democrática para toda a população, num espaço de lazer e convivência que aproxima o cidadão com a sua própria cidade. Fui quase todos os dias à Feira do Livro e presenciei a débil taxa de participação das pessoas nas actividades culturais. Tudo isso num evento totalmente grátis, num espaço amplo que cumpriu todas as normas de prevenção contra a Covid-19 e centenas de lugares de estacionamentos gratuitos. Num certame que foi amplamente divulgado e difundido nos mais diversos meios de comunicação social e não faltaram, dia e noite, apresentações de livros, entrevistas a autores consagrados, mesas de debate, workshops, masterclasses e espectáculos musicais e teatrais e actividades direccionadas ao público infanto-juvenil. Não podemos estar sempre a sacudir a água do capote e a atirar as culpas para o Governo, Municípios e decisores políticos. Não me parece honesto estar sempre a bradar que a culpa é da falta de investimento, fraca aposta na educação e baixo poder de compra. Ouvi queixas e lamentos por parte dos livreiros e os desabafos foram sempre os mesmos: as pessoas já não lêem. Portugal é dos países da Europa onde menos se lê e onde menos livros se compram, um país que vive divorciado da leitura e isso espelha-se também no escasso consumo de jornais. Por exemplo, nunca vejo ninguém a queixar-se do dinheiro (mal) gasto no fast food do McDonald´s, está “sempre à pinha”, uma autêntica romaria de famílias inteiras ao shopping, e apenas um McMenu Big Mac com batata frita e refrigerante custa à volta dos 6€; na Feira do Livro de Braga eu gastei 6.50€ em dois livros, 3€ no livro “Doutor Doente” do consagrado escritor Jacinto Lucas Pires, tive a oportunidade de estar/falar com o próprio que me autografou o livro e ainda comprei um livro para a minha filha de quase 3 anos de idade por 3.50€ (livro escolhido por ela). Outro exemplo que nos tira tempo para ler é a mediocridade da televisão, “a televisão é um instrumento permanente do ‘divertissement’.(…) é uma cultura do esquecimento e uma criação do esquecimento sobre o esquecimento” (Eduardo Lourenço). Até o simples “googlar” atirou os livros para a fogueira… Sim, caro leitor, é muito mais fácil vermos e apontarmos os defeitos alheios do que os próprios. E a cultura da ignorância, presente na nossa sociedade, prisioneiras do “acho que” e do generalismo, da mediocridade, do voyeurismo e do exibicionismo primários, está a alimentar aquilo a que poderemos chamar de destruição massiva social e cultural. Temos de assumir, de uma vez por todas, que também nós, individualmente, contribuímos para a destruição da cultura do nosso país e a identidade de Portugal. E fico-me por aqui…

Sugestão…

será que o desconfinamento só serve para as esplanadas, shopping, praias, jogos de futebol e afins? Por isso sugiro que se desconfine para comprar um simples livro, um clássico da literatura portuguesa, e assistam aos programas culturais do vosso Município. Sugiro que se aculturem. Uma coisa é certa, à nossa volta a visão, perdão, a falta dela estão bem presentes e há cada vez mais incompetentes em lugares de responsabilidade, públicos e privados. Será que ainda vamos a tempo de mudar? Talvez sim, talvez não. Só depende de nós. Leiam…

Verba volant, scripta manent



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