Espaço do Diário do Minho

Cuidar da saúde do cérebro, também com esclerose múltipla

23 Jul 2021
João Cerqueira

A 22 de Julho comemora-se anualmente o dia mundial do Cérebro. Esta efeméride pretende lembrar-nos a importância de manter uma boa saúde do nosso cérebro, independentemente da nossa idade ou doenças que possamos ter. Se cuidarmos do nosso cérebro todos os dias podemos tirar o máximo partido das nossas capacidades e gozar plenamente a nossa vida durante muito tempo. E, em grande medida, tal só depende de nós. Manter um estilo de vida ativo, praticando exercício regularmente (caminhar várias vezes por semana), e uma alimentação equilibrada, evitando alimentos açucarados, gordos ou processados, são essenciais para nos mantermos saudáveis. Se além disso não fumarmos, não roubarmos horas ao sono e mantivermos uma boa rede de contactos sociais teremos a receita para o sucesso. Adicionalmente, é importante manter a tensão arterial muito bem controlada (tensões mais ou menos bem são um perigo para o cérebro), nem que seja com recurso a medicação.

Se estes conselhos são vitais para nós todos, ainda mais importantes são para quem tem esclerose múltipla, a doença que este ano é o tema do dia mundial do cérebro. A esclerose múltipla é uma doença auto-imune, ou seja, em que o sistema imunitário nos ataca em vez de nos defender dos vírus e bactérias. Os alvos, nesta doença, são o cérebro, a medula espinhal e o nervo da visão. Os doentes com esclerose múltipla têm episódios em que uma parte do seu sistema nervoso deixa de funcionar, porque está a ser “atacada” pelo sistema imunitário, chamados surtos. Estes episódios, chamados surtos, geralmente duram alguns dias e depois tendem a desaparecer, para voltar a aparecer, com outros sintomas, passado algum tempo. Os sintomas mais comuns de um surto de esclerose múltipla são a dificuldade em ver de um olho, a falta de força ou perda de sensibilidade num braço ou numa perna, a as dificuldades urinárias ou a falta de equilíbrio. No início da doença, o doente recupera completamente da maioria dos surtos, mas tal recuperação pode ser enganadora. Se a doença não for tratada, com o tempo o cérebro e a medula vão acumulando pequenas mazelas de cada surto e, quando estas atingem um número elevado, vão começando a funcionar pior. O doente começa então a acumular incapacidade: dificuldade em andar, descoordenação de movimentos, dores, dificuldade de memória, alterações urinárias, dificuldade de visão. Felizmente, há já muitos tratamentos para a esclerose múltipla e vários, incluindo muitos que estão a ser testados no Centro Clínico Académico (2CA) do Hospital de Braga, que conseguem parar a doença. O importante é fazer um diagnóstico o mais cedo possível e começar logo a tratar, não deixando que a doença vá magoando o nosso sistema nervoso. Para tal, ao mínimo sinal de surto ou de novas lesões, ajustamos a medicação, na tentativa de encontrar uma que pare completamente a doença e permita poupar cérebro, evitando as mazelas a longo prazo causadas pela doença. Com esta abordagem, seguida na consulta de esclerose múltipla do Hospital de Braga, os doentes diagnosticados mais recentemente, e muitos dos mais antigos, têm conseguido ter uma vida normal. Para que assim permaneçam durante muitos anos, contudo, é importante que, também eles sigam os conselhos com que comecei este artigo. É esse o propósito deste dia mundial, este ano dedicado à esclerose múltipla: lembrar-nos a todos, não doentes e doentes, mas especialmente a estes, que cuidar da saúde do cérebro é absolutamente essencial.



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