Espaço do Diário do Minho

Um século de humildade à la Morin

19 Jun 2021
Manuel Antunes da Cunha

Corria a primeira metade dos anos 1990, quando alguém telefonou para a redação do Diário do Minho, relatando que havia sido encontrado um animal venenoso – já não me recordo se uma cobra ou uma aranha – numa caixa de bananas de um hipermercado recentemente inaugurado em Braga. Depois das verificações da praxe, concluímos que a alegada informação não passava de uma acusação mal-intencionada ou, na melhor das hipóteses, de um simples rumor. Nos poucos anos de exercício do jornalismo, deparei-me com alguns desses boatos que ora celeremente se desvaneciam após um processo de averiguação sumário, ora teimosamente resistiam a qualquer tentativa de escrutínio.

Uns anos mais tarde, chegou-me às mãos “La rumeur d’Orléans” (1969), do sociólogo francês Edgar Morin. Em abril de 1969, começou a constar-se que mulheres jovens desapareciam nos provadores das lojas de roupa de comerciantes judeus da Rua de Bourgogne, no casco histórico daquela cidade. Dizia-se que eram drogadas e raptadas através de um alçapão e de passagens subterrâneas que comunicavam diretamente com as margens do Loire, onde estaria acostado um submarino pronto a abastecer redes de prostituição no Médio-Oriente. Apesar dos desmentidos da polícia e dos artigos na imprensa, o insólito boato persistiu alguns meses.

Rumores similares reproduziram-se centenas de vezes, um pouco por todo o mundo, dando corpo a um dos mais célebres mitos urbanos. Quem nunca ouviu falar de alegados casos de sequestro perpetrados por comerciantes asiáticos, no âmbito de redes internacionais de tráfico de órgãos? Foi Morin, complementado com outras leituras, quem me fez perceber que o rumor não é algo de misterioso, mas um ato de comunicação com mecanismos próprios: uma fonte não oficial, uma difusão em cadeia, conteúdos que se adaptam à atualidade e uma significação social. No caso das bananas do hipermercado de Braga, das lojas dos judeus ou dos chineses, a coletividade aponta o dedo ao que vem de fora, ao que é diferente, convertendo-o em bode expiatório.

A fértil produção de Morin desbravou um conjunto de questões sociais, algumas das quais até então desvalorizadas pelos intelectuais. Ajudou-nos, por exemplo, a compreender o processo de divinização das estrelas de cinema (Les stars, 1957), a cultura de massas (L’esprit du temps, 1962) ou ainda a necessidade de mudar de paradigma num sistema complexo (La méthode, 6. vols., 1977-2004), entre muitos outros temas. Deixa uma obra monumental constituída por dezenas de livros, centenas de artigos, filmes, documentários, tomadas de posição sociopolíticas e um exemplo de vida. Só em 2020, publicou “Les souvenirs viennent à ma rencontre”, “Pour résister à la régression”, “Changeons de voie: les leçons du coronavirus” e “Le sport porte en lui toute la société”. A propósito, Edgar Morin prepara-se para completar 100 anos, no próximo dia 8 de julho!

Saiu há dias, “Leçons d’un siècle de vie”. Desengane-se o leitor, não se trata de um ensaio no qual o intelectual francês distilas sentenças solenes do alto da sua cátedra secular. Sociólogo do pensamento complexo, Morin dá-nos um banho de humildade. Em jeito de balanço, reconhece dois grandes equívocos na sua trajetória política e intelectual: o seu pacifismo, antes da II Guerra Mundial, quando não se apercebeu da verdadeira natureza do nazismo, e a sua adesão posterior ao ideário comunista. Diz-nos ainda que a vida e o estudo lhe ensinaram que “a história humana é relativamente inteligível a posteriori, mas sempre imprevisível a priori”.

Embora consciente de que a barca de Caronte está cada vez mais próxima para levá-lo para a outra margem, continua a amadurecer com as lições de um século de vida. Ainda ativo no Twitter, lamenta que o espaço público se tenha transformado numa arena de ódio. Dentro de dias, não faltarão referências ao seu centenário. Não é certo que todos tenham entendido a humilde lição de Morin.



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