Espaço do Diário do Minho

UM SILÊNCIO TÃO GRANDE QUANTO A INÉRCIA

15 Mai 2021
Luís Tarroso Gomes

Uma inesquecível quietude nas avenidas. Silêncio. A brutal redução de trânsito durante os confinamentos, em especial no primeiro, trouxe-nos momentos quase mágicos, que nos transportaram até à Braga da juventude dos nossos avós. De repente, em pleno dia e mesmo nas artérias mais largas podíamos ouvir alguém a conversar do outro lado da rua, o pedalar de um ciclista ao fundo ou o canto dos pássaros. Esta acalmia, forçada por cá, é realidade noutras cidades por opção política firme.

Incapazes de compreender a dupla oportunidade histórica que tiveram diante de si, os governantes desta cidade não ousaram tomar uma única medida. É verdade que não seria de esperar grande visão. Afinal, são as mesmas pessoas que conseguiram gastar todos os fundos comunitários do Portugal 2020 dedicados à mobilidade urbana sustentável sem que nada de substancial mudasse.

Assim, findos os recolhimentos pandémicos, Braga regressou ao seu modelo arcaico assente no automóvel particular. Por dezenas de decisões erradas e anacrónicas dos executivos de Mesquita Machado, e por uma completa falta de coragem dos executivos de Ricardo Rio, em Braga todas as alternativas ao automóvel continuam marginalizadas. Os transportes coletivos não são competitivos pois funcionam nas mesmas vias dos demais veículos; não há percursos seguros para a mobilidade suave (bicicletas, trotinetes, etc.) o que afasta os mais vulneráveis; os percursos a pé dentro da cidade são ou absurdos ou francamente desagradáveis (e sabemos há mais de 60 anos que a cidade morre onde não há peões). Quantas pessoas vemos a pé na rodovia? Quantas centenas de metros é preciso andar a mais para atravessar a rua? Repare-se como os carros regressaram em força, mas os passeios das avenidas continuam vazios, sintoma da doença desta cidade.

Defender uma cidade mais ciclável é mais do que pedir para circular em duas rodas com segurança em qualquer ponto da cidade. É lutar pela qualidade de vida de todos os bracarenses, exigindo que a cidade volte a ser humana e a ter vizinhança, que reduza substancialmente a poluição (e as doenças associadas), que acabe com os atropelamentos, que nos deixe desfrutar da sonoridade da urbana sem que o ruído dos carros cilindre tudo. Não é mais do que tantas cidades desta Europa bem maiores do que Braga já conquistaram e que, apesar disso, não desistem de querer ir ainda mais longe.

Quando há 20 anos escrevi os primeiros textos aqui no Diário do Minho sobre mobilidade, andava a visitar várias cidades no norte da Europa, ouvindo o constante tilintar das bicicletas que passavam, dos ciclistas que encontravam um amigo e paravam para conversar ou dos que vinham descansados com as compras e os filhos atrás nas suas biclas. As mais recentes gerações dessas cidades já só conheceram essa nova relação urbana, e puderam, por exemplo, fazer toda a escolaridade deslocando-se de bicicleta. Estamos em 2021. Já era tempo de Braga sair da cepa torta.



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