Vídeo: Miguel Viegas

Agentes locais esperam que a pandemia passe para voltar a haver encontro com milhares de pessoas em Melgaço.

Luísa Teresa Ribeiro
15 Mai 2021

A Festa do Alvarinho e do Fumeiro de Melgaço convida, até amanhã, pelo segundo fim de semana consecutivo, a descobrir os produtores de vinho, fumeiro e produtos tradicionais, bem como a degustar estas iguarias nos restaurantes do concelho. Os agentes locais apreciam a realização da iniciativa, que promove o melhor que o município tem para oferecer, mas sentem falta da “festa” proporcionada pelo encontro de milhares de pessoas que anualmente se juntam no evento.

Restaurantes como “O Brandeiro” criaram um menu específico para a Festa do Alvarinho

Depois de uma edição em formato digital, em 2020, a Festa do Alvarinho e do Fumeiro realiza-se este ano de forma presencial, mas num modelo alternativo que cumpre as regras de segurança em vigor para travar a pandemia. Em vez da tenda gigante, por onde passava uma multidão, as adegas estão de portas abertas e os restaurantes apresentam menus especiais de harmonização dos vinhos com os produtos locais. No centro da vila, em frente aos Paços dos Concelho, há um ponto de venda, sendo também possível a aquisição aqui. Um guia de bolso, com um mapa com os aderentes e respetivos contactos, ajuda os visitantes a percorrerem o território.

Ponto de venda está instalado no centro da vila

Os produtores contactados pelo Diário do Minho reconhecem o esforço feito pela Câmara Municipal de Melgaço para promover o evento ainda em pandemia, mas sentem a falta do modelo tradicional, pelo impacto que tem nas vendas, cruciais para escoar a produção das empresas mais pequenas, mas também pela “festa” que é ter milhares de pessoas a passar por um único local durante um fim de semana. No entender dos produtores, mesmo depois da crise de Covid-19, a realização das visitas tem potencial para ser conjugada com o programa tradicional do evento, dando visibilidade ao investimento que estão a fazer no enoturismo.

 

Carolina Osório apresenta os vinhos da Quinta de Soalheiro

 

Márcio Lopes considera que, este ano, o formato adotado foi um «modelo de recurso», mas que se «for afinado» pode ter futuro, uma vez que regiões como Rioja, Chablis, Sancerre ou Borgonha já fazem a rota das adegas. Para este produtor e enólogo, «o formato anterior tem de se manter, porque é muito importante para a economia local», mas faz todo o sentido que haja dias de portas abertas para promover ainda mais a região, criando uma oportunidade para que os interessados possam conhecer os projetos de maneira mais reservada e aprofundada.

Márcio Lopes convida a conhecer a adega e as suas referências

 

Paulo Cerdeira Rodrigues, da Quinta do Regueiro, defende que seria mau para a região dois anos consecutivos sem a vertente presencial desta «grande festa do vinho», pelo que o modelo encontrado é «uma alternativa simpática» num tempo em que não pode haver ajuntamentos. Uma vez que a Quinta do Regueiro tem vindo a apostar no enoturismo, o produtor aplaude as visitas às adegas, mas alerta que com este modelo há um decréscimo acentuado nas vendas. Os interessados podem visitar a Quinta do Regueiro mediante marcação, mesmo fora das datas da Festa do Alvarinho.

Quinta do Regueiro tem nova sala de provas

 

Artur Meleiro, da Valados de Melgaço, diz que esta é uma forma de dar a conhecer o trabalho dos produtores e de divulgar a sub-região, mas é um formato que não traduz a essência da Festa do Alvarinho e do Fumeiro, que é reunir os produtores e milhares de pessoas num “piquenique” que dura três dias. «Para além do convívio, a Festa do Alvarinho valia a pena do ponto de vista comercial, porque as vendas eram significativas», enfatiza. Este produtor lembra que sempre esteve portas abertas para quem quisesse fazer visitas e assim vai continuar, bastando marcar.

Alvarinho Reserva, 2019, da Valados de Melgaço acaba de receber medalha de ouro internacional

 

Rui Lameira, da Quinta de Folga, destaca que «o conceito de festa» é uma questão fulcral nesta realização, que se deve manter. Contudo, sustenta que o modelo das visitas pode ser uma extensão da Festa do Alvarinho, incentivando quem costuma ir apenas um dia ao recinto da feira a permanecer mais tempo ou a voltar para conhecer os produtores e descobrir os recursos naturais do concelho.

Quinta de Folga produz fumeiro tradicional de Melgaço de porco bísaro

 

Hugo Gonçalves, responsável de Enoturismo da Quintas de Melgaço, refere que embora se sinta a falta do ambiente de festa, também há visitantes que apreciam o facto de poderem conhecer a adega e todo o portfolio de vinhos da empresa, bem como harmonizá-los com enchidos e queijos. Durante o certame, neste espaço, é possível encontrar a produtora de enchidos de Inês Lobato, potenciando as sinergias entre os produtores locais.

Quintas de Melgaço dá a conhecer o seu portfólio em harmonização com sabores locais

 

Verónica Solheiro, da Prados de Melgaço, defende o regresso da Festa ao modelo tradicional logo que seja possível, mas realça que o formato das visitas proporciona mais proximidade entre os produtores e os clientes, pelo que poderá ser implementado noutro tipo de iniciativa.

Prados de Melgaço é o único produtor de queijo do concelho

 

Posição idêntica manifesta Rui Esteves, da Dom Ponciano, argumentado que com este modelo se vende menos e não há a alegria proporcionada pelo encontro de grupos. «Com este modelo, as pessoas podem ir a uma adega e ficar lá o dia todo, não visitando mais ninguém», adverte.

Rui Esteves na sala de provas da Dom Ponciano

 

Por seu turno, João Pereira revela que a Quinta das Pereirinhas, em Monção, sempre incluiu a possibilidade de visita, que se mantém, mediante marcação, até inclui passeio de tuck-tuck, indo ao encontro da vontade dos clientes de conhecerem o projeto de forma mais personalizada. Não obstante, nota que se sente a falta do encontro dos produtores e dos clientes num único espaço, num convívio animado por um cartaz cultural com música popular.

Quinta das Pereirinhas é um dos produtores de Monção aderentes à iniciativa




Outras Reportagens


Scroll Up