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Instituições e população trabalham em conjunto para que todos se sintam em casa.

Rui de Lemos
7 Mai 2021

A vila de Moreira de Cónegos, no concelho de Guimarães, é um verdadeiro caso de sucesso na integração de imigrantes, sobretudo oriundos do subcontinente indiano. Autarquia, instituições, empresas, comércio, escolas, forças de segurança e população trabalham em conjunto para garantir que todos se sentem em casa e acolhidos de braços abertos.      

Quem, por estes dias, abancar num qualquer café da vila de Moreira de Cónegos e, por um acaso, ouvir na rádio ou TV, notícias ruins dos imigrantes que penam no Alentejo, arrisca-se, com natural espontaneidade, a ouvir um «uii, credo, isto aqui não é nada assim». E não é. Pelo contrário. «É um oásis» comparado com as situações de Odemira e um «verdadeiro caso de sucesso» aplaudido por todos.  

Mhenir está no posto de comando da embalagem de mirtilos e outros frutos vermelhos da “Bfruit”, uma união de produtores, liderada pelo grupo “Landman”, o principal empregador da mão-de-obra agrícola e imigrante na vila. Chegou há 3 anos do Nepal, sempre teve casa própria  e já cá tem toda a família. Como ele, existem largas dezenas de casos, no universo de 180 imigrantes ao serviço da empresa, sobretudo oriundos do Nepal, Índia, Bangladesh e Paquistão. 

«Adaptamos a nossa produção de sazonal para quase anual de forma a garantir o máximo de estabilidade aos trabalhadores. Mantemos as pessoas connosco em permanência e 80% já estão nos quadros permanentes da empresa. Auxiliamos sempre os homens no reagrupar da família, trazendo mulher e filhos, bem como, em conjunto com outras empresas têxteis, a arrendar casas e a conseguir emprego para as esposas», ilustrou, ao “DM”, Helder Oliveira, diretor-geral e sócio gerente da Landman.  

O processo de integração de imigrantes em Moreira de Cónegos, «alguns vindos do Alentejo à procura de emprego estável, qualidade de vida e dignidade é absolutamente fantástico», garante e elogia a vice-presidente do Município, Adelina Pinto. 

A comunidade recebeu-os de braços abertos, adotou-os com dignidade, arranjou-lhes desde mobílias a máquinas de lavar, sem esquecer bens alimentares. A ação é coordenada pelo Gabinete de Apoio Social da Junta de Freguesia, mas tem no Agrupamento de Escolas Virgínia Moura, IEFP e nas empresas grandes aliados. 

O trabalho comunitário é assegurado pela autarquia, sobretudo, através do Projeto Raízes, que disponibiliza profissionais para o apoio social e psicológico. Esta é a principal «ponte de diálogo» e ação concertada com os vários atores no terreno, além de garantir o ensino da língua portuguesa em horário pós-laboral a todos os adultos oriundos do subcontinente indiano, temporariamente suspenso pela pandemia. 

«Sempre fomos terra de têxteis, mas os imigrantes vieram ajudar a dar nova dinâmica à vila e empresas. São pessoas extraordinárias de que toda a gente gosta. Sempre os recebemos de braços abertos e fazemos tudo para que se sintam bem», conclui o autarca António Brás Mendes.

 

Uma escola com um fantástico mundo de diversidade dentro

A sinalética e informação dispersa na sede do Agrupamento de Escolas Virgínia Moura, em Moreira de Cónegos, está sempre em quatro línguas: português, inglês, nepalês e bengali. Do recreio às salas de aula, reina a diversidade, com crianças oriundas do Nepal, Bangladesh, Singapura, Angola, Brasil, entre outras geografias. É uma escola de portas abertas ao mundo, que acolhe muita diversidade dentro, valorizando a integração.

Um grupo de 30 crianças, desde o pré-escolar ao 9º ano, frequentam a Escola de Moreira de Cónegos e são filhos de imigrantes.  Por isso, um grupo de professores integra o projeto “O Mundo à Nossa Porta”, em curso desde janeiro de 2020 e até dezembro de 2021, financiado pelo Fundo para o Asilo, a Migração e a Integração (FAMI), um instrumento financeiro que visa promover a gestão eficaz dos fluxos migratórios, imigração e integração. Apenas existem 9 projetos no país e o público-alvo são as crianças nacionais de países terceiros que residem legalmente no território nacional.

«Este projeto tem para nós uma importância extrema enquanto escola inclusiva que tem um papel importante numa sociedade que desejamos inclusiva, mas sobretudo porque forma e cuida de crianças, que muitas vezes vêm frágeis, em termos psicológicos e de conteúdos pedagógicos, e se deparam com os desafios de integração numa nova comunidade», valoriza a diretora Maria de Jesus Carvalho. O grupo de docentes das várias disciplinas é todo bilingue, comunicando em inglês e auxiliando a vencer a «barreira da língua», em português, mas também auxiliando com guias de acolhimento, cedência de equipamentos tecnológicos e garantindo apoio permanente, mesmo legal e jurídico. 

«Queremos mesmo que eles se sintam em casa, gostem de estar connosco e tenham um percurso escolar de sucesso», resume a coordenadora do projeto Rosário Carvalho. Este colo e atenção que a escola dá faz «muita diferença» na vida daquelas crianças e das suas famílias. «O nosso esforço é para que se sintam apoiados e felizes. E vai além da escola, porque ainda nesta fase de pandemia garantimos que todos tinham acesso à Internet e conseguimos, com a comunidade, arranjar televisões para as casas das famílias que não tinham para que os alunos seguissem a escola em casa», ilustra.

E isto é apenas uma amostra do trabalho todo que aqui não cabe, como a confeção e partilha de receitas gastronómicas típicas ou as visitas guiadas programadas a monumentos da região para todas as famílias, num permanente intercâmbio de culturas. 

«Gosto muito da escola e sou muito feliz aqui», resumiu Samridhi, de 10 anos, natural do Nepal, resumindo o sentimento generalizado do extraordinário e afável grupo de crianças.

[Reportagem completa na edição impressa de hoje do Diário do Minho]




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