Espaço do Diário do Minho

Mãe de “primeira viagem” em tempo de Covid: os desafios da maternidade durante a pandemia

30 Abr 2021
Maria de Fátima Moreira de Carvalho

– “Mãe, porque é que temos de ficar trancados em casa? Pai, porque é que agora já não vais trabalhar?” – quem não ouviu isto recentemente? Certamente todos nós.… Mas, menos frequentemente abordado e, de igual modo crucial, é quando os filhos ainda estão a caminho: “Estou grávida e estou no meio de uma pandemia!”. São duas coisas que per si acarretam angústia desmedida e sentimentos contraditórios no meio de explicações titubeantes: ficar grávida e viver (n)uma pandemia. Cada uma destas temáticas já deu origem a muitos livros de especialidades diversas… imaginem o que será vivê-las ao mesmo tempo!

A pandemia de Covid-19 impôs e impõe-nos novos desafios diários. Desde as regras de etiqueta respiratória, higiene e desinfeção das mãos, ao distanciamento social, passando pelo confinamento obrigatório, muitos foram os hábitos que se perderam ou que tiveram de adquirir novos contornos na sociedade atual. Ninguém teve tempo de se preparar, pois o “novo coronavírus” não nos deixou outra hipótese. Porém, dentro do limitado número de projetos não adiáveis (ou não anuláveis) pela Covid-19 encontra-se a gravidez. Nesta peculiar e inesquecível fase de vida, tão caracteristicamente marcada pelo sentimento de felicidade e bem-estar, eis que irrompe a incerteza inerente à pandemia que tenta sem sucesso agitar a “tranquilidade gravídica”.

Na verdade, a maternidade é uma dádiva da natureza. Para quem é crente, como eu, é uma dádiva de Deus. Ser mãe, é uma das missões mais ambiciosas (senão a mais ambiciosa) que uma mulher pode enfrentar. E ser mãe de “primeira viagem” centraliza ainda mais esta dualidade: encanto versus desafio. Por um lado, trata-se de uma experiência ímpar, de um sentimento desmedido, de uma descoberta constante e de um enamoramento sem fim que começa logo desde o início da gravidez. Mas, por outro lado, ser mãe de “primeira viagem” pauta-se muitas vezes por um sentimento de incerteza face ao mundo da maternidade ainda por descobrir, aliado ao receio de poder falhar com o ser mais maravilhoso e vulnerável do universo. E experienciar tudo isto em plena pandemia? A pandemia aguça a incerteza e o tamanho do desafio!

A minha experiência de ser “apanhada pela pandemia” a meio da gravidez orientou-se pela inegável necessidade de adaptação social. Novos desafios se impuseram: o indesejado afastamento social. O mais doloroso foi o afastamento físico (e também social, claro, pois não é a mesma coisa pela internet) dos parentes mais próximos. Pais e sogros, futuros avós em modo deslumbrado e ansioso, foram forçados a aceitar o fim dos almoços familiares de domingo e obrigados a deixar ruir os seus sonhos de acompanhar bem de perto o crescimento da barriga que lhe trará um(a) neto(a). Não obstante a tudo isto, a barriga cresceu, cresceu… E continuou a crescer longe do calor aconchegante da restante família. E, os dias foram passando nesta agridoce espera. O tão aguardado dia do nascimento vislumbrou-se bem diferente do idealizado em época pré-Covid, claro está! Numa época de tantas incertezas, como é que eu ainda ousei idealizar? Suponho que só pode ter sido ter sido obra das hormonas!

O carinho de familiares e amigos fazia-se sentir não presencialmente, mas de modo virtual em inúmeras redes sociais através das novas tecnologias. E assim se seguiram os primeiros meses de vida deste incomensurável amor de mãe, bem longe dos nostálgicos encontros familiares e de amigos de outrora. Era o inevitável cenário possível!

A pandemia forçou-nos a inúmeros sacrifícios. Roubou-nos a liberdade a que sempre estivemos habituados… Mas, simultaneamente, fez-nos tomar consciência do real valor que as relações familiares e de amizade têm no nosso quotidiano. Levou-nos a dar mais valor aos nossos, àqueles que realmente se importam e nos importam, e a querer como nunca manter os laços que nos unem mesmo que a distância seja incontornável. Será uma lição de vida para o futuro? Redefinirá a nossa lista de prioridades? Sairemos mais fortalecidos?

Cada um de nós guardará consigo ensinamentos únicos desse enorme legado deixado pela Covid-19, cada qual levará consigo uma lição de vida ímpar!



Mais de Maria de Fátima Moreira de Carvalho


Scroll Up