Estes tempos de guerra que vivemos
A guerra que enfrentámos em África de 1961 a 1974 exigiu um enorme esforço económico-financeiro, social e humano; e, desde a sua inesperada exclusão, envolveu muito improviso, ajustamentos, imaginação e sacrificios – sangue, suores e lágrimas – quer da parte dos poderes governativos e forças sociais, quer dos atores militares.
Então, em termos castrenses e ações no terreno, o soldado português foi considerado por generais americanos como o melhor soldado do mundo, sobrepondo-se às condições adversas do terreno em que lutava , ao esforço militar despendido, às restrições logísticas, humanas e psicológicas e outras adversidades que lhe eram exigidas; e, ademais, a esta problemática alheia não era a distância de milhares de quilómetros da família e da Pátria.
Sei do que falo porque fui combatente durante vinte e seis meses no norte de Angola e em zona de intervenção de risco elevado; e, como em todos estes cenários de guerra, a angústia, a improvisação, o medo e o sofrimento faziam parte do nosso dia-a-dia.
A começar pelas instalações – pavilhões préfabricados – dentro de arame farpado onde vivíamos quando não participávamos em missões de logística e combate, a alimentação, o material de guerra e a segurança eram os mínimos essenciais; e, para quem não sabe, quando saíamos, fosse em ações de reabastecimento e vigilância, ou de perseguição e combate que podiam durar um ou vários dias, a nossa alimentação limitava-se às rações de combate (latas de conserva, biscoitos e bisnagas de leite e chocolate) que carregávamos, bem como todo o material militar (arma automática, granadas, morteiros, munições e, por vezes, tendas) que somavam vários quilos às costas de cada um.
Para fazermos esta guerra a preparação militar era rápida e incompleta, devido à urgência em responder simultaneamente ao aumento das pressões do inimigo em três violentos cenários de guerra (Angola, Guiné e Moçambique), à escassez de meios e desconhecimento absoluto do terreno onde atuávamos; mas, a cautela, a vigilância, a coragem e a resiliência fisica e psicológica foram sinergias básicas na nossa formação militar, imprescindíveis ao êxito combatente.
Depois esta guerra, porque não tinha as caraterísticas de uma guerra convencional, de trincheira era uma guerra de guerrilha, do bate e foge e fazia-se da surpresa constante, do domínio do terreno, do desgaste psicológico e, como tal, mexia fundamentalmente com o equilíbrio emocional das forças em combate; e, aqui, o inimigo levava-nos vantagem porque lutava em casa e usava a adaptação e mobilidade territorial que lhe permitia o ataque rápido, a surpresa e a fuga como arma imprescindível a uma guerra singular.
Neste momento, enfrentamos igualmente uma guerra que não sendo menos violenta e mortífera que a de África dela difere por ser uma guerra biológica com um inimigo invisível, demolidor e dissimulado e se desenrola, não em capinzais, bolanhas e matas, mas em centros de saúde, clínicas médicas e hospitais; e os seus atores soldados são mas de bata branca, numa luta hercúlea contra este vírus sem rosto, estratégia e tática definidos.
A luta tem sido titânica, dificil e, por vezes, muito inglória; por isso, e, a meu ver, para mais eficiente utilização de processos e meios de combate, desde o início se devia ter criado um Conselho de Salvação Nacional ou, quando muito, um Governo de Emergência que, numa atuação concertada, independente e coesa de todas as forças políticas assim impedisse a sua digladiação e tentativa de retirar da situação proveitos ideológicos e partidários; bem como o aproveitamento vergonhoso e indevido que, por vezes, dela se tem feito, como o da corrida às vacinas por muitos chicos-espertos.
Contrariamente à guerra de África, a guerra contra a Covi-19 tem a enorme vantagem de poder ser diretamente apoiada por uma retaguarda, embora nem sempre na sua totalidade, ativa, responsável e presente; por isso, cada vez mais essencial se torna para o seu êxito que nos mantenhamos fortes, unidos, vigilantes, resilientes e corajosos no máximo apoio aos soldados da frente de combate; e se já fomos os melhores soldados do mundo, em múltiplas frentes, mormente na da guerra colonial, não baixemos as armas, não cruzemos os braços, não desistamos nunca de lutar, de sermos uma retaguarda firme, unida, corajosa e combatente.
E nunca deixemos, como desgraçadamente já tem acontecido, de ser responsáveis e cumpridores das normas e exigências sanitárias emanadas das entidades competentes e de pensarmos que todos unidos seremos sempre mais fortes e vencedores; porque se assim não for, o saldo desta guerra biológica, que ainda nem um ano leva, em vítimas mortais já ultrapassa largamente o da guerra de África que durou treze longos anos e sem vencedor declarado.
Então, até de hoje a oito.
Opinião