Espaço do Diário do Minho

Sentido de continuidade e crise pessoal – a peremptória chamada

9 Fev 2021
Pável MODERNELL

Enquanto primatas pertencentes à linhagem do homo-sapiens-sapiens temos consciência da morte, o que justifica a angústia gerada pelo questionamento da continuidade da nossa existência. Os seres humanos precisamos acreditar que somos imperecíveis, por isso procuramos compreender o nosso desenvolvimento e prever o seu curso. Isso é o que chamamos de «sentido da vida», sem o qual cairíamos no desespero. Cada um de nós constrói assim um sentido próprio de continuidade, que responde a uma certa coerência interna, à qual estamos sujeitos. Quando cultuamos os nossos ancestrais, por exemplo, eles nos dão a possibilidade de participarmos de uma linha de continuidade à qual nos sentimos indefetivelmente ligados. Uma espécie de extensão extra individual que tende a dar-nos um sentido de continuidade e coerência histórica.

Em termos de desenvolvimento pessoal, a experiência de continuidade é a vivência estruturante básica, essencial para vivermos outras experiências com sentido de continuidade, incluindo às mudanças. Uma vez que o nosso sentido de continuidade está razoavelmente estabelecido, a tendência é ignorar o que pode ser inconsistente, inesperado ou perturbador para nós. A consciência pessoal é assim construída graças ao facto de que, entre as mudanças, separações e roturas, algo permanece constante. A perceção de nós mesmos como seres autónomos, com identidade e existência próprias, é possível graças à construção de um núcleo mental que nos devolve a ideia de não termos mudado desde o nascimento. Uma construção em linha de uma vida ou de uma história pessoal que nos permite lembrar e nos reconhecer ao longo do tempo.

Mas, as crises, sempre acompanhadas de uma perceção de mudança, exigem da nossa parte um conjunto de esforços de adaptação a novas circunstâncias. A dor ou o sofrimento que vivenciamos nos processos de crise revela as lutas internas entre o que se deseja conservar e a construção da mudança. O fracasso desse processo leva a uma desestruturação do senso de identidade e ao desespero. O sucesso favorece o surgimento e o desenvolvimento de formas novas, mais amplas e profundas de auto perceção. Em situações ideais, a oposição progressiva das experiências pessoais garante a continuidade e o desenvolvimento de novas formas de complexidade do self, bem como a construção de uma identidade auto definitória, cujo núcleo permanece constante e estável ao longo da vida, apesar do facto de que tudo o resto está a mudar constantemente. A presença da experiência de descontinuidade é um indicador de fracasso da nossa tentativa de construir internamente uma nova realidade. É de salientar que, a expressão “internamente” remete à ideia de processos que decorrem a nível inconsciente. Recebemos a novidade do que está a acontecer através do mal-estar, que emerge como atributo ao serviço da mudança em curso.

A perda do sentido de continuidade leva à perda do sentido da vida. Uma vida quebrada deixa de ser interessante e o desespero surge como reflexo da pugna entre a mudança em curso e o querer ignorar o que se está a passar. Como as experiências de interrupção do sentido de continuidade de uma mudança em curso podem ser inevitáveis, é necessário reconhece-la, aprender dela, respeitá-la e incorporá-la como componente da nossa linha vital. A sensação de rotura da continuidade psíquica é a mais insidiosa e desconcertante das experiências subjetivas de uma crise. É também a mais importante, porque nos remete à necessidade de desenvolver uma nova visão da realidade e descobrir novas capacidades e forças emergentes até então desconhecidas ou inexploradas. A dor ou o sofrimento que se desdobra em uma experiência de crise é um sinal claro de que estamos em processo de desenvolvimento psíquico. A sensação de urgência, o apelo perentório à ação e a necessidade de tomar uma decisão sem sentirmo-nos devidamente preparados, aumentam a tensão interna de uma situação já difícil, mas também nos conduz a olhar na plenitude as possibilidades que se abrem.

Referências bibliográficas:

Bahamondes, J. & Modernell, P. (2020). Ni Ángeles, Ni Demonios: Integrando el Síntoma en Psicoterapia, una Perspectiva Posracionalista. Aperturas Psicoanalíticas (63).

De Rivera, L. (2012). Crisis Emocionales: Estrés, Trauma y Resiliencia. España: Instituto de Psicoterapia de Madrid.



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