Espaço do Diário do Minho

Presidente certo para país incerto

13 Jan 2021
Dinis Salgado

Aproximam-se as eleições presidenciais (20 de janeiro) e os candidatos movimentam-se como podem: mais em debates televisivos e nas redes sociais do que nas ruas; e, por força da pandemia, as suas mensagens, projetos e programas de ação têm, assim, dificuldades acrescidas em circularem e, obviamente, influenciar e definir escolhas.

Comícios, arruadas e fóruns alargados de discussão reduzem-se ao mínimo; e, quando muito vão sendo debitadas algumas ideias já feitas e slogans gastos com o velho recurso à cassete enferrujada que faz as delícias de alguns candidatos de extrema-esquerda.

Agora, olhando para o painel de concorrentes, a amostra é pobre e pouco motivadora, abundando o mais do mesmo e escasseando a novidade e a criatividade; e, excetuando Marcelo Rebelo de Sousa, o perfil, o currículo, o saber e a experiência da maioria vêm de muletas e, por isso, não entusiasmam nem acalentam ilusões .

Então, que presidente certo para o país incerto?

Recuando no tempo e analisando o perfil e papel dos quatro ex-presidentes – Eanes, Soares, Sampaio e Cavaco – é evidente a sua disparidade: Eanes, militarista, Soares, populista, Sampaio, parlamentarista e Cavaco, rigorista; além do mais, bem claras e explícitas foram duas formas de atuação – a das presidências abertas (Soares e Sampaio) e a das presidências fechadas (Eanes e Cavaco) que muitas dúvidas deixaram sobre se algum deles foi o presidente certo para o país incerto.

E, se ao estilo de atuação destes quatro presidentes adicionarmos o de Marcelo Rebelo de Sousa durante o seu primeiro mandato, em termos de envolvimento e mobilização das instâncias governativas, das instituições públicas e privadas e da sociedade em geral, ele ganha aos pontos mesmo a Mário Soares; é que Marcelo não foi um presidente capaz de puir as calças nos cadeirões de Belém, consumindo muitas mais horas na rua do que no gabinete, criando um estilo muito pessoal de ser presidente, quer através do contacto afetivo com o povo, quer na preocupação em que sempre teve a vida real do país.

A meu ver, o estilo deste primeiro mandato de Marcelo Rebelo de Sousa foi claramente presidencialista em vez de semipresidencialista como é tradição e regra constitucional; e este presidencialismo permitiu-lhe uma atuação pressionadora, influenciadora e exigente junto do governo, antecipando-se, por vezes, ao primeiro-ministro na análise dos factos e tomada de decisões.

Pois bem, a escolha do presidente certo para o país incerto que temos de fazer reveste-se de muita incerteza e inconsequência, uma vez que estão em ponderação as qualidades, atributos e carateres do candidato; porque, no presente momento, mais necessário do que um presidente-político, o país precisa de um presidente-estadista que seja aglutinador, participativo, conciliador e mobilizador de forças e vontades; e sendo certo que somos um povo que somente se revelou grande e empreendedor quando à frente dos seus destinos teve chefes carismáticos, com sentido de liderança e de controlo e que souberam puxar o país para a frente com o seu dinamismo e exemplo de empenho e amor à Pátria, a escolha menos fácil se apresenta

Depois, o presidente certo para o país incerto tem de ser inspirador de ações e decisões coletivas e apontar escolhas e definir prioridades, porque nem sempre o prioritário é o essencial e muito menos o urgente é prioritário: e frequentemente estas conceções são politicamente confundidas e invertidas ao sabor de ideologias e preconceitos classistas e de grupos partidários.

Vivemos um tempo de urgências – chegar primeiro, passar à frente, subir depressa e à custa dos outros, abraçar sonhos e abarcar o mundo –, claramente um tempo em que é difícil fazer escolhas; e se pensarmos bem e as quisermos fazer, estas urgências, porque não são urgentes-urgentes, não são essenciais e muito menos fundamentais.

Ainda o presidente certo para o país incerto que se nos apresenta no presente e muito mais no futuro tem de ser um presidente humanista, promotor de campanhas sociais e morais, de contatos e afetos, que ajude a sarar feridas, a promover consensos alargados e a elevar a autoestima dos portugueses ern prol do progresso e da consensualidade coletiva; e saber envolver e mobilizar os governos para o trabalho, a justiça social, a ética e o bem comum.

É difícil a escolha? É, mas não impossível se, despojando-nos de paixões político-partidárias, nos focarmos essencialmente na história de vida de cada candidato (quem és tu? donde vens? o que tens feito por ti, pelos outros e pelo teu país?) como a razão prioritária da nossa escolha.

E um conselho: não troque nunca o certo pelo incerto e boa sorte.

Então, até de hoje a oito.



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