Espaço do Diário do Minho

A viagem histórica da Imagem de Nossa Senhora de Fátima a Lisboa

12 Jan 2021
Salvador de Sousa

Como frisei na crónica anterior, a juventude feminina quis levar a Imagem de Nossa Senhora de Fátima a Lisboa para presidir ao seu congresso e no dia 7 de abril de 1942, em pleno conflito mundial, saiu a primeira imagem da Cova da Iria.

Vila Nova de Ourém foi o primeiro local, depois de Fátima, a prestar homenagem à Virgem. Milhares de pessoas e as autoridades civis quiseram estar presentes, tendo a Câmara oferecido a Nossa Senhora a bandeira do Município. Foi um momento muito especial e de grande alegria, num local onde, durante e logo após as aparições, o poder de então e outras forças anticlericais perpetravam ações fanáticas contra os pastorinhos e contra o local do encontro das crianças com Nossa Senhora, como foi o caso da dinamitação da pequena capela, em março de 1922, o roubo do arco que assinalava o local dos diálogos divinais da Virgem com os três pobres inocentes, a proibição das peregrinações e, acima de tudo, foi o local da prisão dos videntes. Houve uma enorme emoção de todos os fiéis ao verem a Imagem de Fátima a vir ali mostrar o Seu amor por todos aqueles que tanto sofreram, a grande maioria, por assistirem a tantos desvarios de um pequeno grupo que presidia aos destinos da terra.

Seguidamente, chegou à cidade de Leiria ao anoitecer, onde um mar de gente quis receber a Imagem linda e com um extraordinário peso simbólico. Tal como em Ourém, a Câmara também entregou à Senhora a bandeira da cidade, na presença de outras autoridades civis e militares. Todos os sinos repenicaram em sinal de júbilo, o toque dos clarins, os foguetes estoiravam no ar, um avião lançava flores sobre a multidão como sinal de fé, agradecendo as bênçãos e os prodígios de Nossa Senhora àquela terra do Lis.

Um altar improvisado, logo à entrada da capela-mor da catedral, cercado de belas flores brancas, iluminadas por resplandecentes círios, acolheu a Sagrada Imagem da Virgem Maria. O espaço da Sé foi diminuto para acolher a enorme multidão que foi sendo revezada durante a vigília que decorreu ao longo da noite.

No dia seguinte, às oito horas, sai de novo o cortejo em direção a Lisboa, após a celebração da missa pelo Bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, o grande impulsionador deste acontecimento. Embora fragilizado pela doença e por tantos anos de vida de entrega à causa das Aparições, acompanhou, permanentemente, e viu, com os seus próprios olhos, a demonstração da fé e de tanta devoção a Nossa Senhora.

Outro local, emblemático e de forte significado pátrio, visitado pela Imagem de Fátima foi o Mosteiro de Santa Maria da Vitória e o local da Batalha, testemunhos de entrega do nosso Santo D. Nuno Álvares Pereira e de tantos outros, sítios proféticos em que a devoção e a entrega a Nossa Senhora já se faziam fortemente sentir. «Foi dali que os filhos de S. Domingos, em épocas passadas, fizeram irradiar a devoção do Rosário que tão arreigada ficou na Diocese do Milagre e, talvez por isso, a Mãe de Deus a escolheu para as suas manifestações em Fátima, aonde veio pedir a intensificação da reza do mesmo Rosário, apresentando-o como a arma providencial no mundo calamitoso em que vivemos.»

Continuou o cortejo por Alcobaça, Nazaré, Caldas da Rainha, Óbidos, Bombarral, Torres Vedras e por outros locais até chegar a Lisboa. Gente de todas as classes sociais, autoridades locais e mesmo os indiferentes à religião marcavam presença em todo o sítio de passagem da Imagem da Imaculada com grande piedade e devoção, cantando e rezando entre lágrimas que marcavam a enraizada intimidade com a Mãe de Deus. Corriam para ver passar a resplandecente imagem. As próprias crianças subiam muros, árvores para terem um local visível; algumas fábricas interrompiam a sua labuta para que os operários pudessem ver Nossa Senhora; os agricultores acorriam às bermas das estradas, levantando as suas armas, as suas enxadas, rogando a bênção para o seu trabalho do campo; os campinos do Ribatejo, cavalgando com galhardia, faziam, durante algum tempo, a guarda de honra à imagem da Senhora de Fátima.

Principal fonte destas crónicas: “Fátima Altar do Mundo”, 3 volumes, sob a direção literária do Dr. João Ameal da Academia Portuguesa da História; direção artística de Luís Reis Santos, historiador de arte e diretor do Museu Machado de Castro, Coimbra; realização e propriedade de Augusto Dias Arnaut e Gabriel Ferreira Marques, composição e impressão – Companhia Editora do Minho, Barcelos, editada pela Ocidental Editora, Porto, em 1953, 1954, 1955. Papel fabricado especialmente pela Companhia do Papel do Prado em Tomar.



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