Espaço do Diário do Minho

A relevância dos lapsos

12 Jan 2021
Luís Martins

Dos lapsos a que aqui me refiro, o Primeiro-Ministro disse, ou pensou, que não tinham relevância. Eu acho o contrário e, por os considerar graves, dou-lhes o destaque na crónica desta semana.

1. Primeiro, o episódio do procurador europeu que envolve o Ministério da Justiça. Alterar um curriculum vitae não é, segundo o gabinete do Primeiro-Ministro de Portugal, um caso grave. Nem que se digam mentiras descaradas. Nada que ponha em causa quem o preparou. Nem sequer quem emitiu, ainda que verbais, as orientações para a sua elaboração. Nenhuma consequência política. Nem mesmo a censura a quem mandou redigir o documento e se distraiu, não o lendo. Logo num caso que estava sob os holofotes públicos por causa da decisão do governo, que impôs o seu candidato, à revelia do escolhido por um grupo de peritos europeus! São meros “lapsos sem relevância”, diz Costa! Será normal que nenhum responsável na hierarquia e no Governo leia uma carta redigida e dirigida ao Conselho da União Europeia? Não se destinava a missiva a convencer os responsáveis europeus de que o candidato proposto pelo Governo de Portugal era o melhor? E se era, já agora uma outra pergunta: para quê utilizar três mentiras que valorizariam tanto o curriculum do magistrado proposto pelo Executivo? Para o actual Governo, com um único responsável político, o primeiro-ministro, um processo que não corre bem, como este, não tem relevância, ponto. Estamos entendidos e não é de agora. Temos a experiência de outros momentos, de outros casos, da mesma valorização dos factos. Quando a discussão de cada um podia atrapalhar, o Primeiro-Ministro embrulhou-os em palavras ou na falta delas e entregou-nos, um a um, os vários embrulhos, sem direito a melhor resposta. Pessoalmente, só trago hoje este à crónica porque o acho relevante. A falta de verdade nunca é irrelevante, nem nas relações, nem na representação democrática.

2. Agora, o lapso que implica única e exclusivamente o Primeiro-Ministro. Há pessoas assim. Acreditam que se Costa disser que se pode sair de casa o vírus não atacará! E o chefe do Governo já estava avisado. Mas, mesmo que não estivesse, devia ouvir quem sabe, aliás, quem repetidamente lhe recomendou decisões mais acertadas. De facto, o cenário já tinha sido descrito pelos especialistas e seria agudo. Apesar do aviso, Costa preferiu ignorar e não seguir os pareceres que lhe foram apresentados. E a verdade é que Marcelo também não queria consoar só e até estava disposto a desdobrar-se para festejar com quase todos, embora respeitando o limite de convivas em cada mesa. Nesta, como noutras situações, nem sempre os anjos ajudam os seus fiéis, sobretudo, quando estes são irresponsáveis. O “pacto de confiança com os portugueses”, para utilizar as palavras do Presidente Marcelo, não foi assinado por todos e isso até já era previsível. Não bastaria, por isso, convidar apenas os cidadãos a ficar em casa. Algo mais se tornava imperioso e Costa, que tem a força política toda no Executivo, fechou os olhos e os ouvidos quando decidiu como decidiu. Os resultados começaram a sair. E a realidade está a mostrar que os especialistas tinham razão. Os números de novos casos de infecção excederam os que algum dia foram registados desde o início da pandemia. Mais, se a escalada continuar, não haverá dique que aguente. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) já mostrou sinais de saturação e os profissionais de saúde declararam esgotamento. A Ordem dos Médicos teme a ruptura do SNS. Pelo aumento do número de casos e a pressão que se sente já nos hospitais. Se noutros casos o discurso de subterfúgios diluiu ou colocou dúvidas de responsabilidade, aqui a culpa não morre solteira. Costa é o culpado. É o único responsável pela duplicação de casos e pelo aumento do número de mortes. Pena que os erros e irresponsabilidades da governação tenham apenas consequências políticas e isso só se os fiéis deixarem de acreditar que o primeiro-ministro tem poder sobre o vírus! Ao contrário de Marcelo, Costa ainda não veio declarar o seu erro, talvez porque considera que foi “um lapso sem relevância”.



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