Espaço do Diário do Minho

«Fé e ciência», um diálogo pacífico!

21 Nov 2020
Maria Susana Mexia

Um peregrino em busca da verdade é uma das muitas definições de Homem que ao longo da história nos têm procurado elucidar sobre este ser diferente, específico, multifacetado e com características únicas.

Desde os tempos imemoriais até aos nossos dias, sempre o Homem se apresentou como um ser inquieto, que se admira, se espanta e, acto contínuo, se lança em busca de respostas às questões que a realidade circundante lhe coloca.

O conhecimento foi e é para ele uma epopeia de vida, um doce desassossego de alma, numa constante procura de saber mais e descobrir o que desconhece mas sabe que existe…

Este mistério tão real como humano, levou Alberto Giacometti, escultor suíço, a representá-lo numa maravilhosa escultura em bronze, à qual chamou: L’Homme qui marche (O Homem que caminha de andar decidido, com o olhar posto no horizonte, em direcção à luz das estrelas).

Sequencialmente, com o decorrer da história, o Homem foi procurando encontrar respostas para os seus problemas, em sociedade, pois isolado nunca ele teria sobrevivido, na medida em que é por excelência um ser social e só vivendo interpares foi possível subsistir, fazendo face ao imenso desconhecido.

As descobertas, as respostas, eram partilhadas e o assentimento aos saberes encontrados e transmitidos eram comumente aceites por todos. Não seriam, seguramente, feitos à toa pois a coerência das conclusões, a credibilidade e idoneidade de quem o dizia, eram factores que conduziam a uma aceitação racional e crítica.

Quase todos os conhecimentos que nós adquirimos ao longo da nossa vida devem-se ao facto de confiarmos em quem no-los transmite. Acreditamos que nos chamamos o nosso nome e acreditamos que são nossos pais os que nos dizem ser, sem querer investigar ou fazer qualquer experimentação credível para confirmar tal facto.

Sabemos que a Austrália existe sem nunca lá termos ido, sabemos que existiram duas grandes guerras mundiais porque nos contaram e nós fazemos crédito nessas pessoas, nos livros de história, enfim, num leque de informações que recebemos e consideramos credíveis porque a nossa razão nos aponta e indica que sim.

Há uma cadeia de confiança no saber, que se recebe dos outros e se transmite. Viver é confiar, é fazer fé do que nos dizem, do que nos contam os que sabem, porque viram, porque aprenderam, porque lhes contaram.

Sabemos muitas coisas porque acreditamos, diria que mais de 90% do nosso conhecimento é consequência do “fazer fé no que nos dizem”…

Este acto de acreditar é também o cerne da ciência, todos os cientistas acreditam que o mundo é compreensível, que vão conseguir desbravar todo o desconhecido e transformá-lo em conhecimento rigoroso. Esta atitude da Ciência é um acto de fé na capacidade humana e é a atitude mais razoável do homem no mundo e na vida.

Quem só acredita na razão não sabe nada, pois o seu conhecimento não se elaborou, não recebeu matéria-prima para o fabricar, na medida em que se recusou a interiorizar todos os conhecimentos transmitidos pelos livros, pelas tradições e pelos outros, em sociedade.

Mais grave é esta atitude redutora no plano sobrenatural ou divino, pois aqui a negação da Fé bloqueia o Homem, impedindo a sua abertura ao que está para além, ao envolvimento com uma realidade mais abrangente, mais completa. Quem acredita vê, a Fé é uma Luz que ilumina por fora e por dentro, por isso ela transforma o Homem e prepara-o para aceder à coerência da totalidade do real. Se o conhecimento é uma constante no decurso da humanidade, poderemos fazer um voto de assentimento a toda a Tradição e afirmar que Deus é o princípio e o fim, o Alfa e o Ómega, o sentido pleno de toda a nossa caminhada, embora errar seja próprio da Condição Humana.

Se em alguns meios ainda se insiste numa possível incompatibilidade entre Ciência e Fé, vai sendo pacificamente aceite que entre ambas não existem contradições nem exclusões, digamos que está “cientificamente provado” que são realidades dinâmicas em diálogo não só constante como também possível.

Ao longo dos séculos tem-se verificado que a Ciência e a Fé são totalmente compatíveis, são companheiras de viagem. Faz todo o sentido, que alguns dos grandes cientistas tenham sido também sacerdotes, e as suas vidas são disso provas irrefutáveis.

No Dia Mundial da Ciência tem o seu lugar a 24 de Novembro. Tendo como objetivo enaltecer o papel da Ciência para o desenvolvimento humano, destacar grandes nomes da ciência e colocar novos desafios para o futuro vale a pena recordar que:

“Não há verdadeira ciência sem abertura ao mistério, nem fé autêntica sem abertura à investigação científica”.



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