Fotografia: CMAB

Igreja de Braga desafia Estado a olhar para a crise humanitária em Moçambique

Onda de deslocados já chegou à paróquia de Santa Cecília de Ocua, onde a Arquidiocese de Braga tem uma equipa missionária

Jorge Oliveira
9 Nov 2020

A Arquidiocese de Braga está preocupada e alerta os portugueses para a crise humanitária na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, onde tem uma Missão na paróquia de Santa Cecília de Ocua, ao abrigo de um acordo de cooperação missionária com a Diocese de Pemba.

Numa altura em que várias organizações da Igreja se desdobram em ações solidárias e de auxílio à população deslocada por causa dos ataques e perseguições de grupos terroristas, todos os apoios para ajudar este povo martirizado são necessários e bem-vindos. Cheguem dos cidadãos, das comunidades ou do Estado português.

«Portugal deve dar outra consistência à sua presença naquela região. Moçambique é um país irmão e é preciso ter essa consciência», defende o Arcebispo de Braga, segundo o qual era importante que «os deputados se interessassem e não olhassem só para assuntos de interesse muito duvidoso».

No entender de D. Jorge Ortiga, este drama humanitário em Cabo Delgado deveria ser colocado na agenda do Parlamento português por algum deputado que «tivesse consciência de universalidade» e «reconhecesse os laços que existem entre Portugal e Moçambique», no sentido de ser aprovada uma «ajuda muito concreta» a Moçambique, que «pode ser militar,  económica ou de outro tipo».

Este assunto já chegou ao Parlamento Europeu, que votou uma resolução, apresentada pelo PPE. O vice-presidente do Partido, o eurodeputado português Paulo Rangel, diz que o o objetivo «é tentar encontrar apoio financeiro, logístico e em recursos humanos para lidar com a situação humanitária e para travar a onda de ataques». 

Os ataques e perseguições de grupos terroritas têm provocado centenas de mortes e espalhado o medo na província de Cabo Delgado, levando  milhares de pessoas a abandonarem as suas casas, pondo-se em fuga para lugares do país onde possam encontrar alguma segurança.

Fogem sem os seus haveres e sem saber onde viver e o que fazer. Esta onda de deslocados vindos das zonas de conflito chegou à região de Pemba, o coração da província, onde a Arquidiocese de Braga tem uma Missão, na paróquia de Santa Cecília de Ocua.

O bispo daquela diocese, D. Luíz Lisboa, no meio deste cenário preocupante, não se tem cansado de alertar publicamente para a escalada de violência e para o drama humanitário que isso está a provocar na região.

O Papa Francisco, a partir do Vaticano, denunciou os ataques nesta província moçambicana, pediu o fim da violência e manifestou a sua proximidade ao povo moçambicano. 

Também a Arquidiocese de Braga já manifestou a sua solidariedade e tem chamado a atenção para esta crise humanitária que afeta a diocese irmã de Moçambique, para a qual tem enviado apoios.

«Nós estamos em Ocua, paróquia que muito estimamos e à qual estamos a dar um relevo e importância muito grandes, e sentimos o drama que se está a viver naquela região de Moçambique, assumimo-lo como nosso e gostaria que os cristãos da Arquidiocese de Braga tomassem consciência do que está a acontecer», diz o Arcebispo de Braga.

Referindo que estas causas humanitárias «exigem uma cerca sensibilidade», D. Jorge Ortiga desafia cada um a «interrogar-se sobre o que pode fazer por aquelas pessoas que estão a sofrer, sem excluir os políticos com assento parlamentar e os responsáveis pelas instâncias governamentais do nosso país.

A Arquidiocese de Braga tem algumas campanhas em movimento, organizadas pelo seu Centro Missionário, para ajudar pessoas da província de Cabo Delgado que estão a viver em situações desumanas, sobretudo por causa dos ataques e perseguições de grupos armados insurgentes. 

Estima-se que haja mais de 250 mil pessoas deslocadas das zonas/comunidades atacadas, que estão espalhadas por todo a província e províncias vizinhas, mas também num campo de deslocados em Mutege, a cerca de 40 Km de Pemba. Alguns deslocados já chegaram também a Ocua.

Na paróquia de Ocua,  que tem 98 comunidades espalhada por um território quase do tamanho do da Arquidiocese de Braga, o Centro Missionário de Braga, através da sua equipa missonária, está a entregar a famílias deslocadas kits alimentares com o apoio da Cáritas Diocesana de Pemba, bem como a disponibilizar parcelas de terreno na sua “machamba” (fazenda) para que essas famílias possam trabalhar a terra e não fiquem dependentes dos alimentos fornecidos pela Cáritas ou então a sobrecarregarem as famílias onde estão alojadas.

O CMAB está ainda a colaborar nesta causa humanitária através da campanha “Juntos por Cabo Delgado”, lançada em julho com o envolvimento de vários parceiros como a Cáritas Portuguesa e a Cártitas de Moçambique, a Universidade Católica, os Leigos da Boa Nova, os Missionários Combonianos do Espírito Santo, a Infância Missionária de Balasar, a Missão Amares, entre outros.

O dinheiro angariado é entregue à Diocese de Pemba para assegurar não apenas alojamento e distribuição de comida aos deslocados, mas também apoio psicossocial aqueles que ficaram traumatizados, por agresões, perda de familiares, perseguições, destruição de suas casa e aldeias, etc.

Campanha “Juntos por Cabo Delgado” 

Os donativos podem ser feitos através da conta PT50 0010 0000 0276 7480 0020 8 (Banco BPI); MB Way 927 829 362; e página de Facebok do CMAB.

[Notícia completa na edição impressa do Diário do Minho]





Notícias relacionadas


Scroll Up