Espaço do Diário do Minho

Quando, no futebol, nem tudo o que parece, é

16 Out 2020
Carlos Mangas

Desde que me lembro de ver futebol, Portugal teve sempre um jogador que se destacava dos demais e cuja ausência era habitualmente considerada justificação plausível para não se obterem bons resultados. Primeiro Eusébio. Depois sem tanto alarido, mas ainda assim valorizados entre pares, Chalana, Futre e Figo. Atualmente, Cristiano Ronaldo (CR7). Quando um não podia (pode) jogar ou se aproximava o términus da carreira, dizia-se que dificilmente se conseguiria substituto e a seleção iria notar a sua falta. Agora, graças à evolução da ciência (e) do treino, as carreiras são mais duradouras, mas aproxima-se, inexoravelmente, o final da carreira de CR7 como se percebe pela gestão feita a nível de clube e seleção. A exemplo do acontecido com os antecessores, há quem questione como será a seleção pós-CR7, mas também há quem diga que…a seleção joga melhor sem ele.

Quando Fernando Santos é questionado sobre o assunto, quase o tiram do sério – como se fosse habitual o Homem rir-se. Eis a sua resposta categórica e repetida as vezes que forem necessárias “é impossível uma equipa ser melhor, sem o melhor do mundo”. Caro engenheiro, permita-me que discorde e parafraseando alguém, lhe diga: olhe que não, olhe que não!

No futebol como em qualquer outra área do desporto, nem tudo o que parece, é. Senão, as equipas com os melhores executantes seriam sempre melhores, venceriam tudo e nunca teria existido Totobola nem hoje haveria Placard, nem casas de apostas.

É verdade que quanto melhores forem os executantes – e CR7 é um dos melhores – mais probabilidades há de a equipa ser melhor e ganhar mais vezes. Mas, e concordará comigo, quando um jogador se destaca dos demais, os colegas podem ter tendência a relaxar um pouco porque têm a convicção que em caso de necessidade há quem resolva, ou o que também é comum acontecer, apostar todas as fichas jogando para e com ele, mesmo em situações cuja melhor solução passaria por outrem. Por isto e por termos visto algumas das melhores exibições da nossa seleção na fase de apuramento da anterior Liga das Nações – sem a presença do CR7 – consideramos a pergunta pertinente e a ter razão de existir.

Não sou anti CR7 nem anti Messi. Por incrível que possa parecer, consigo gostar dos dois de igual forma sem necessitar denegrir um para valorizar outro. No entanto, também sei, e há quem o defenda com argumentos válidos, que o talento não é tudo.

Com treino e trabalho adequado podemos transformar jogadores e equipas, que por si só não são excecionais, num grupo coeso e de excelência que superem, inclusive, em termos exibicionais e de resultados, o que a equipa conseguiria com os “astros”.

CR7 já “ganhou” jogos sozinho e a seleção já realizou algumas das suas melhores exibições sem ele.

CR7 é importante na seleção? É. A equipa pode jogar melhor sem ele? Pode. (pareço o RAP a imitar o presidente Marcelo).

Há um provérbio árabe que diz que o cavalo trota consoante o seu dono. Quem sabe, não esteja aqui a resposta – inconclusiva – à questão.



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