Espaço do Diário do Minho

Um golpe político de António Costa

14 Out 2020
Dinis Salgado

Estará Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República, refém político do primeiro-ministro António Costa? E que, aquando da visita conjunta à Autoeuropa, a afirmação de que esta não seria a última visita de Marcelo, pois ainda lá havia de voltar como presidente eleito para um segundo mandato, a qualquer observador político minimamente atento, a deixa traz muita água no bico.

Ora, apanhado ou não de surpresa, porque em política o que parece quase sempre é, o presidente dos afetos limita-se a assobiar para o lado, dizendo, apenas, que ainda nem sequer é candidato; e digo apanhado de surpresa, porque a coabitação entre Belém e S. Bento tem sido inquestionável, pacífica e frutuosa, muitas vezes parecendo Marcelo, em certas atuações políticas que têm a ver com assuntos de governação, mais primeiro-ministro do que presidente da República.

Pois bem, tenho cá para comigo, que o dito de António Costa mais não foi do que um golpe político de autêntico mestre, pois nunca declarou publicamente o apoio à reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa; e, se Ana Gomes se lançou na aventura de candidata a Belém é porque sabe, mesmo que seja por linhas travessas, que tem no Partido Socialista (PS) um suporte-base a que se agarrar, nem que seja para minimizar a sua derrota.

Todavia, que garantias tem o atual presidente de que António Costa vá votar na sua reeleição e arraste consigo o PS? Ninguém, obviamente, porque, mesmo que o tenha soprado ao ouvido de Marcelo, como o voto é secreto, o primeiro-ministro fica bem na fotografia, dizendo pela frente o que não faz por trás, ou seja garantindo a reeleição de Marcelo, mas não que aconteça com o seu voto e dos camaradas socialistas.

E se por ironia do destino o PS votasse em bloco em Ana Gomes e Marcelo tivesse de enfrentar uma segunda volta e sob a ameaça de ser derrotado? E que a esquerda unida (PS, BE, PCP e restantes) pode bem alcançar a maioria nas urnas e o atual presidente sofrer inesperadamente uma derrota e nem sequer ser reeleito.

Agora, neste momento o único apoio formal com que Marcelo Rebelo de Sousa conta é do Partido Social Democrata (PSD) o que não deixa de ser natural e evidente; só que não será fácil reunir à direita uma maioria capaz de derrotar a esquerda, pois muitos eleitores que poderiam votar Marcelo, devido à sua ajuda à governação de António Costa, ou se vão abster ou votar branco ou nulo.

Ademais, duvido que o primeiro-ministro alguma vez declare publicamente o seu apoio e o dos socialistas à reeleição do atual inquilino de Belém, porque pode-lhe sair o tiro pela culatra; porém, quando muito, pode permitir liberdade de voto aos seus camaradas, na ausência de um candidato oficial do seu partido, dado ser Ana Gomes uma candidata à revelia das estruturas dirigentes do Partido Socialista e muito contestada, devido à sua rebeldia e denúncia da atos menos corretos que grassam nos corredores do poder e não só.

Aqui chegados, uma questão me parece oportuna e evidente e a merecer atenção de politólogos e analistas políticos: será que António Costa espera e deseja ardentemente que a reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa ajude à sua vitória nas próximas eleições legislativas e, porque não, à sua futura candidatura a Belém? Ou, temendo que lhe venha a escapar tal vitória, puxa Marcelo para o seu lado, garantindo-lhe o apoio e do seu partido, mesmo sem o fazer de forma explícita, à sua reeleição, retirando daqui, todavia, no imediato, trunfos políticos para a sua pacífica governação cada vez mais complexa devido às difíceis condições socioeconómicas que o pais atravessa?

Uma coisa, porém, é certa e segura: o segundo mandato de qualquer presidente da República é sempre diferente do primeiro, ou seja, menos pacífico, consensual e colaborador, como a história nacional nos ensina e demonstra; e, sem dúvida, que Marcelo Rebelo de Sousa gostaria, a meu ver, de, no final do seu segundo mandato, deixar o Partido Social Democrata (PSD) no poder, não fosse ele o seu partido de sempre, o seu partido do seu coração; e esta atuação não é novidade. Pois já aconteceu com outros anteriores presidentes.

E neste medir de forças, digo eu, entre Belém e S. Bento, mesmo que ocultas e nada explícitas, há que contar que, sendo António Costa um verdadeiro animal politico, muito ardiloso, sagaz e manobrador, Marcelo Rebelo de Sousa não lhe fica atrás e, até, direi que lhe ganha aos pontos em qualquer circunstância; por isso, se o episódio da Autoeuropa foi no sentido de fazer batota, de jogar o jogo do gato e do rato e de fazer Marcelo seu refém, desiluda-se António Costa, pois bem pode vir a colher frutos bem amargos dessa sua atuação.

Então, até de hoje a oito.



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