Vídeo: Fibrenamics Green

Plataforma Fibrenamics Green é finalista de prémios europeus RegioStars 2020.

Luísa Teresa Ribeiro
14 Out 2020

Transformar resíduos industriais em produtos inovadores é o objetivo da Plataforma Fibrenamics Green, com sede em Guimarães. O trabalho que está a desenvolver na promoção da economia circular valeu-lhe um lugar entre os finalistas dos prémios RegioStars 2020, cujos vencedores vão ser conhecidos hoje, em Bruxelas.

Um candeeiro feito com resíduos de plástico e madeira, calçado que alia restos de plástico à cortiça ou uma peça de mobiliário criada a partir de resíduos minerais de basalto são alguns dos produtos que levam até ao consumidor o trabalho da Fibrenamics Green – Plataforma de Desenvolvimento de Produtos Inovadores com Base em Resíduos.

Com sede no campus de Azurém, em Guimarães, esta plataforma é finalista dos prémios RegioStars 2020, promovidos pela Comissão Europeia, concorrendo na categoria de “Economia circular para uma Europa verde” e ao prémio de votação do público. Os vencedores vão ser conhecidos hoje, às 18h00, em Bruxelas, com transmissão online, no âmbito da 18.ª Semana Europeia das Regiões e dos Municípios.

Esta nomeação traduz o reconhecimento internacional do trabalho que está a ser desenvolvido por um projeto criado em 2016 pela Plataforma Fibrenamics da Universidade do Minho, em parceria com o Centro para a Valorização de Resíduos, com o apoio financeiro do Programa Norte 2020.

A plataforma agrega atualmente 20 investigadores, mais de 100 empresas de vários setores e um “Green Think Thank” com 80 criativos na área de design de produto, movimentado 2,5 milhões de euros em projetos de investigação e desenvolvimento.

O coordenador da Fibrenamics Green, Raul Fangueiro, explica que a plataforma visa converter «resíduos industriais – considerados lixo – em produtos de elevado valor acrescentado através da incorporação de ciência, tecnologia e design», constituindo-se como uma estrutura «colaborativa entre universidades, empresas, investigadores e designers».

O professor da UMinho revela que a plataforma surgiu da constatação de que «havia uma lacuna muito grande» na valorização dos resíduos industriais, havendo a necessidade de os transformar em «produtos de valor acrescentado, em artigos que o consumidor pudesse valorizar».

O projeto surge com a intenção de contrariar a ideia que estava disseminada de que «os resíduos, sendo lixo, seriam incorporados e escondidos em alguma coisa. Por exemplo, poderiam servir como carga de estruturas, mas nunca como material de base para se poder criar produtos inovadores».

A plataforma foi, então, constituída para ligar o conhecimento técnico-científico da Universidade do Minho nesta área às empresas e a criativos responsáveis pela idealização de produtos que pudessem ter interesse para o mercado e para o dia a dia dos consumidores.

Em declarações ao Diário do Minho, o investigador sublinha a diversidade de fileiras e de empresas com que a plataforma está a trabalhar, que abrange resíduos fibrosos, do têxtil e calçado; resíduos minerais, da indústria mineira; resíduos plásticos do automóvel e do calçado; e resíduos de madeira, da indústria do mobiliário.

«A simbiose industrial foi uma premissa importante da criação desta plataforma. Isto significa que um resíduo que é produzido num determinado setor pode servir de matéria-prima para um setor em relação ao qual à partida não encontraríamos uma relação imediata. Por exemplo, os resíduos do setor têxtil podem, depois de tratados, ser incorporados em isolamentos térmicos e acústicos na construção civil», refere, destacando a importância da associação de diversas instituições e empresas para a criação de cadeias de valorização do produto.

Deste trabalho de cooperação já resultou o lançamento no mercado de cerca de uma dúzia de produtos, incluindo calçado, mobiliário ou artigos de decoração, e a criação de duas “spin-offs”: a SlateTec, lançada pela empresa Lousas de Valongo, para a valorização de resíduos produzidos na extração da ardósia; e a Givaware, que se dedica ao desenvolvimento de produtos, utilizando novos materiais sustentáveis de acordo com os princípios da economia circular.

O coordenador da plataforma adianta que, para além das áreas que já estão a ser trabalhadas, há interesse em olhar para a valorização dos resíduos do setor da construção, uma vez que estes representam uma parte significativa do volume total do lixo que é gerado.

Raul Fangueiro enfatiza que, «numa primeira fase, todas as tecnologias e produtos desenvolvidos para validar este modelo foram alvo de registo de propriedade intelectual, porque incorporavam caraterísticas inovadoras tanto no processamento dos resíduos como na sua conversão em produtos». Essa propriedade intelectual é «algo que pode ser valorizado como um capital importante da plataforma».

O projeto já foi, entretanto, replicado nos Açores, com diversas ações em curso que integram os resíduos produzidos naquela região autónoma, designadamente madeira, leite, basalto, folhas de ananás, e as competências das empresas locais.

Plataforma é sustentável

Depois da fase inicial como projeto, a Plataforma Fibrenamics Green já está em «velocidade de cruzeiro, trabalhando por si própria». «Já deixou de ser um projeto e passou a ser uma estrutura que funciona de forma autónoma», revela o coordenador, Raul Fangueiro, destacando que a Fibrenamics Green é uma «plataforma sustentável e sustentada», que se apresenta de forma atrativa no mercado.

Este responsável constata o pioneirismo na promoção da economia circular através da valorização dos resíduos, uma vez que a ideia da plataforma foi desenvolvida em 2015, quando estas questões não estavam na ordem do dia.

«Quando decidimos avançar com esta plataforma ainda não estavam definidos os planos orientadores para a economia circular. Agora, a Comissão Europeia tem o Green Deal que é orientador neste domínio e uma das premissas principais no desenvolvimento da União Europeia. Por seu turno, Portugal tem o Plano Orientador para a Economia Circular, onde a questão da simbiose industrial é fundamental», afirma.

O docente universitário enfatiza a importância do financiamento inicial para «validar o modelo para a valorização dos resíduos» assente numa «metodologia inovadora» de ligação entre o conhecimento científico da universidade, as empresas e a componente criativa. Depois do apoio recebido nos dois primeiros anos de atividade, a plataforma passou a ser «capaz de captar por si só, pelas suas competências, o financiamento necessário para trabalhar».

Para o académico, a nomeação da Plataforma Fibrenamics Green como finalista dos RegioStars é motivo de «orgulho e satisfação», afigurando-se como uma valorização do trabalho que tem sido desenvolvido. «É o reconhecimento por parte da Comissão Europeia de que aquilo que fizemos até agora é importante e pode ter um efeito arrastador para outras regiões, uma vez que é algo que pode ser replicado noutros pontos da Europa. Por outro lado, sermos finalistas responsabiliza-nos e motiva-nos para continuarmos a trabalhar», refere.

«Fundos europeus têm impacto real nas nossas comunidades»

«O mote do projeto Fibrenamics Green diz tudo: do lixo para o mercado através do conhecimento. Resume muito bem o que a Comissão Europeia vê como caminho a fazer para a sociedade que queremos: mais justa, mais respeitadora do ambiente, mais digital e resiliente».

É desta forma que a representante da Comissão Europeia em Portugal se refere à nomeação da Plataforma Fibrenamics Green como finalista dos Prémios RegioStars.

Citada em comunicado, Sofia Colares Alves salienta que «exemplos como este provam que é possível ter uma economia que equilibra a sustentabilidade com a viabilidade económica: este é o ponto de partida para uma sociedade baseada na economia circular».

Esta responsável destaca, na nota de imprensa, que «Portugal tem tido constantemente finalistas e vencedores nas várias edições nos Prémios RegioStars. «É uma prova viva de como os fundos europeus têm impacto real nas nossas comunidades e de como os portugueses sabem aplicar estas oportunidades e o seu talento em projetos inovadores», afirma Sofia Colares Alves.

Prémios bateram recorde de candidaturas

A Comissão Europeia atribui anualmente, desde 2008, através da Direção-Geral da Política Regional e Urbana (DG Regio), os prémios RegioStars a projetos financiados pela União Europeia que demonstram excelência e novas abordagens no âmbito do desenvolvimento regional.

Tendo recebido este ano um total de 206 candidaturas, o número mais alto de sempre, os prémios RegioStars centram-se em cinco domínios: transição industrial para uma Europa inteligente; economia circular para uma Europa verde; competências e educação para uma Europa digital; envolvimento dos cidadãos para cidades europeias coesas; e capacitação dos jovens para a cooperação além-fronteiras – 30 anos de Interreg.

A candidatura da Fibrenamics Green aos prémios RegioStars foi realizada pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, entidade gestora do programa Norte 2020. Com um custo total elegível de quase 553 mil euros, este projeto foi cofinanciado em cerca de 470 mil euros pela União Europeia, através do FEDER – Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, enquadrado no programa operacional regional Norte 2020.

Para além da plataforma Fibrenamics Green, Portugal conta com outro finalista, na categoria “Crescimento Inteligente: transição industrial para uma Europa inteligente”. Da responsabilidade do Centro de Soluções Espaciais da ESA Portugal, o projeto «promove tecnologias espaciais em soluções inovadoras para mercados não espaciais», tendo registado, nos primeiros cinco anos, «um impacto de mais de 11,5 milhões de euros e gerado mais de 100 empregos altamente qualificados em 30 startups inovadoras».

Atualização: O projeto ESA BIC Portugal venceu o prémio na categoria de “Transição industrial para uma Europa inteligente”. Mais informação aqui.




Outras Reportagens


Scroll Up