Espaço do Diário do Minho

O servidor público

14 Out 2020
Joaquim Barbosa

Este é o texto que nunca queria escrever, foi a noticia que nunca queria ter, é uma das últimas dores que queria sentir.

A figura do Senhor Presidente da Republica curvado, em profundo e duradouro silêncio, perante a urna fechada, foi a expressão da homenagem da Nação portuguesa a um grande homem de estado, digno e bom.

O Dr.º Fernando Alberto Ribeiro da Silva deve ter sido a pessoa que mais me influenciou nos meus últimos trinta anos. A primeira vez que me recordo dele, deveria ter uns 14, 15 anos, quando acompanhava o meu pai numa sessão do PSD em Braga, no cinema S. Geraldo, presidida por Francisco Sá Carneiro. No final da sessão, Sá Carneiro, amigo e colega do meu pai de carteira de escola, veio todo divertido ter connosco, chegando o Drº Fernando Alberto logo a seguir e continuaram os três a animada conversa.

Logo aí a vivacidade, a determinação o bom humor do Dr.º Fernando Alberto, conjugado com o que o meu pai me falou dele logo a seguir, me impressionaram.

Assim a amizade com o Dr.º Fernando Alberto, foi uma amizade herdada de meu pai e vivida durante as décadas seguintes, até à última sexta feira, um dos piores dias da minha vida.

Para muitos daqueles que tiveram o privilégio de serem amigos do Drº Fernando Alberto, sabem quanto o Dr.º Fernando Alberto influenciou as nossas vidas, o quanto teríamos sido diferentes sem ele.

As lições com O AMIGO eram quase permanentes, quer numa conversa mais séria, nalguma iniciativa pública ou num encontro privado, nas suas atitudes francas e diretas, onde a boa disposição, a inteligência e a sua vivacidade eram uma constante. E como eu gostava de estar com ele, quer a sós no seu escritório só para conversar, quer com os seus amigos que depois foram meus! Até há alguns meses almoçávamos quase mensalmente só pelo prazer de estarmos juntos, sendo eu quase sempre o mais novo.

Um dia, um conhecido meu, que tinha uma empresa que enfrentava várias dificuldades na primeira metade dos anos 90, pediu-me para perguntar se o então Governador Civil, Fernando Alberto o poderia receber. O Dr.º Fernando Alberto, disse -me logo que sim e marcou o dia e hora para a audiência.

Um dia antes dessa data o empresário também militante do PSD, pediu para eu estar presente, algo que para mim gerou um certo desconforto mas, percebendo a sua grande timidez, acedi.

Cheguei ao Governo Civil uns quinze minutos antes da hora e entrei para o gabinete do Governador, após dar dois dedos rápidos de conversa com o seu assessor Manuel Coelho, amigo comum de todas as horas. Quando entrei, olhou para mim por cima dos seus óculos, com aquela expressão que todos os seus amigos conhecem bem e disparou: “ és advogado da empresa do senhor que vou receber ? “Respondi, surpreendido, que não. “És consultor da sua empresa?”. Voltei a responder que não, já começando a sentir-me desconfortável. “És trabalhador da sua empresa? “. Voltei a responder que não, já a perceber que ia ouvir um valente raspanete:

“Então rua, podes sair, que não o recebo por uma questão partidária, mas como Governador; até parece que só o recebo por influência do PSD”. E, mesmo sendo muito meu amigo, apontou-me, sem contemplações, a saída da porta.

A mesma atitude tinha quando, após uma ação de campanha eleitoral, deixava todos os símbolos do PSD pendurados no antigo FIAT 127 da minha mãe com que o levava à porta do Palácio dos Falcões, antecedido de um sorriso a dizer “com licença” e entrar em seguida no edifício do Governo Civil.

A sua figura de homem de estado realçou mais duradouramente com a ascensão do Professor Cavaco Silva de quem foi influente conselheiro e com quem manteve uma ligação política inquebrável. Prova da estrutural consistência dessa relação aconteceu quando o Dr.º Fernando Alberto – embora amigo e companheiro de há décadas do Eng.º Eurico de Melo -– não hesitou em manter o apoio ao Primeiro Ministro aquando da saída do governo do seu Vice Primeiro Ministro e Ministro da Defesa Nacional, não descansando enquanto não sanou o grave conflito entre os dois.

Aliás, foi sempre muito patente, ao longo dos anos, a amizade e admiração mútua entre o Professor Cavaco Silva e do Dr.º Fernando Alberto, decorrente de uma forte cumplicidade pessoal e política.

Fernando Alberto – como aliás, curiosamente disseram no mesmo dia o padre José Antunes, celebrante da homilia do seu funeral e o seu amigo Miguel Macedo – foi uma pessoa que aproveitou bem o tempo e que tinha o grande sentido político para perceber o que é importante, com desprezo pelo supérfluo e ir diretamente àquilo que interessava mais às pessoas, com um sentido muito oportuno e nobre da ação política.

Os fortes desgostos que teve em vida – o pior que um excelente pai e marido pode ter – não lhe quebraram a fibra, o seu caráter e, devido ao seu grande nível pessoal, apenas na intimidade com alguns amigos deixava perceber a profunda tristeza lhe ia na alma.

Só tenho de agradecer ao Drº Fernando Alberto a grande amizade e carinho que me dedicou, tentando atenuar a dor com a qual tenho de me habituar a viver, com a memória permanente da maravilhosa pessoa que conheci na vida e um dos meus melhores amigos.



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