Espaço do Diário do Minho

O livreiro

14 Out 2020
M. Moura Pacheco

O livreiro é uma figura cultural (sim, cultural) portuguesa a caminho da extinção se não mesmo já extinta. Se já não é, foi uma figura polarizadora e dinamizadora da vida do espírito em Portugal.

Ao contrário do que a etimologia da palavra sugere, o livreiro não era um «vendedor» de livros. Ou não era só. Embora os vendesse, era, sobretudo, um «sabedor» de livros, um «perito» em bibliografias, um «conhecedor» de autores e correntes literárias. Por vezes também um «crítico» subtil de novas revelações, assumindo assim o papel de «protector» de jovens talentos através da responsabilidade de «editor» – era o «editor-livreiro».

O livreiro era tudo isto e muito mais. Era o comerciante culto à volta de cujo balcão se formavam tertúlias que discutiam arte, literatura, política, filosofia, ninharias e maledicências, onde muitos talentos despontavam e onde muitos outros estiolavam. Era, enfim, o homem ilustrado que fazia da sua loja um mini-centro de animação cultural.

Mas era mais: para o leitor compulsivo, ou mesmo para o investigador, o livreiro era também um «conselheiro» que informava, esclarecia, orientava.

Desta espécie de «peritos-amantes-de-livros» apenas restam os alfarrabistas. Os outros desapareceram todos.

A transferência do mercado livreiro para os super-mercados matou as livrarias. E as que restam, não têm livreiros – têm uns jovens (às vezes simpáticos) semi-analfabetos que não fazem a mínima ideia do que estão a vender. Nada sabem de edições, editoras, datas, matérias ou mesmo de autores. (Ainda há dias, um destes jovens, de temporais rapados e rabo-de-cavalo, me perguntou se eu não queria um livro que tinha em cima do balcão da autoria de Unámuno (sic!).

As livrarias sobreviventes já não têm livreiros: têm caixeiros que vendem livros como quem vende batatas.

A nobre geração de bibliófilos, de verdadeiros dinamizadores culturais, que fazia do amor aos livros profissão e sustento, morreu. Paz à sua alma! E, a toda a classe, a minha homenagem na pessoa dos três que conheci bem: o Machado da Almedina, Edgar Lello e Antero Braga. A todos devo preciosas sugestões, pistas, informações, esclarecimentos e – sobretudo ao último – uma profunda amizade.

*Professor universitário aposentado.

Nota: por decisão do autor, o presente texto não obedece ao impropriamente chamado acordo ortográfico.



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