Espaço do Diário do Minho

Se ficar o bicho come, se pedalar o bicho não pega

3 Out 2020
Rafael Remondes

Seguramente, toda a gente sentirá que a pandemia alterou imenso as nossa vidas. Ficamos fechados, confinados, durante meses e só no início de Junho pudemos aos poucos deixar a quarentena. Ainda com receios e muitas precauções, vamos saindo e retomando a pouca normalidade que é possível. Sabemos que a nossa vida normal não voltará tão cedo. O actual estado exige muitas precauções.

De tudo de mau e disruptivo que o COVID trouxe às nossas vidas, há oportunidades que nasceram e aspectos menos maus que ocorreram durante este período. O ambiente agradeceu o nosso recolhimento: as emissões de CO2 diminuíram, a qualidade dos nossos rios e mares melhorou e a acalmia do trânsito contribuiu para a redução da poluição sonora. Neste novo quotidiano, alguns perguntaram-se se não seria possível manter aquilo que foi positivo, se seria possível alterar a nossa forma de consumir, produzir e de viver para diminuirmos a nossa pegada ecológica. Neste texto foco-me numa parte, na mobilidade, nomeadamente como esta pandemia pode ser uma oportunidade para massificar o uso da bicicleta.

Com todas as precauções que tomámos no que diz respeito ao distanciamento social e sabendo dos riscos que existem por estar em espaços fechados durante várias horas, o uso dos transportes colectivos traz vários receios que são partilhados por inúmeras pessoas pelo mundo fora. Nesse sentido, numa altura em que regressamos lentamente ao trabalho, a bicicleta tem se tornado uma alternativa muito importante. Como meio de transporte individual que garante não só a distância de segurança, mas também a flexibilidade horária que um transporte colectivo não pode oferecer. E não é apenas uma questão de alternativa ao autocarro ou ao metropolitano, a bicicleta oferece também uma oportunidade para praticar exercício físico ao invés dos espaços fechados que neste momento têm uma limitação de lotação que impede que as mesmas pessoas possam usufruir deles. A OMS sugere inclusive a caminhada e o uso da bicicleta como actividades que preenchem o tempo de exercício físico diário recomendado. Para além disso, nesta altura em que estamos limitados nos ajuntamentos, nos sítios onde podemos ir com regras que temos de cumprir em espaços fechados, a bicicleta oferece um pequeno momento libertador de que podemos usufruir ao ar livre, sem máscara e respeitando todas as distâncias sem riscos de contágio.

Não é por acaso que Portugal e outros países da Europa e do Mundo têm tido um boom tão grande de venda de bicicletas. Cidades como Paris, Milão ou Berlim têm feito em tempo recorde ciclovias. Sim, algumas são precárias, mas são o que basta para incentivar uso da bicicleta. Só França investiu 20 milhões de euros para ter mais franceses a pedalar.

Seria muito interessante ver a nossa cidade com uma rede ciclável. Mesmo que sejam só simples corredores limitados por marcas pintadas na estrada. Estamos no início do ano escolar com milhares de alunos do ensino básico e secundário a circular, há uma série de preocupações de muitos pais no transporte escolar e também nos momentos de convívio que podem ter. Os intervalos estão fortemente restringidos e os alunos são obrigados a passar horas numa sala de aula. Uma rede temporária de ciclovias que pudesse ligar as principais escolas da cidade permitiria que muitas crianças e adolescentes tivessem alguns minutos ao ar livre, tivessem actividade física necessária para o seu bem-estar com o bónus de contribuir para uma diminuição brutal no trânsito automóvel que tanto mal faz à cidade.

Uma das maiores capacidades do ser humano é a capacidade que temos de nos adaptar. Adaptamo-nos a tudo e por isso sobrevivemos e evoluímos aos longo de milhões de anos. Superaremos esta pandemia seguramente, mas devemos refletir e ter imaginação para podermos sair como uma sociedade melhor. A bicicleta é uma excelente alternativa para a mobilidade, para o desporto e para a nossa própria saúde mental. Precisamos fazer uso dela.



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