Espaço do Diário do Minho

Vale apena continuar a falar de Smart City?

27 Set 2020
Paulo Sousa

Portugal e Noruega estiveram em sintonia nestes últimos dias. Em ambos os países organizaram-se os respetivos encontros internacionais, com a temática das Smart Cities como pano de fundo; uma discussão que nos coloca perante desafios que ultrapassam a mera visão tecnológica e nos catapultam para o drama da Sustentabilidade do nosso Modus Vivendi. De um lado e do outro, os discursos bateram quase todos na Economia Verde, perspetivaram-se soluções para os horizontes 2030 e 2050, com conclusões mais razoáveis para o entendimento do mundo urbano. Ou seja, estamos a assistir a uma inversão das preocupações na gestão das cidades, transformando-as em centros de soluções e não meros instrumentos das tecnológicas para um sem número de boas intenções, mas desfasadas das necessidades reais. E estas passam cada vez mais pela palavra chave Sustentabilidade do que pela mera “instrumentalização” da gestão a partir dos dados, apresentada como solução para a análise e resolução de problemas.

Ainda que a sensorização apareça como inevitável entre os muitos instrumentos de análise ao dispor dos gestores urbanos, é certo que o cerne das preocupações europeias obrigou a consolidar uma lógica instrumental das tecnológicas ao serviço das políticas e não o inverso como aconteceu com muitas cidades que viram os seus investimentos perderem-se entre as incompatibilidades da interoperabilidade e Interconetividade. Esta preocupação com a inevitabilidade dos avanços do mercado da Inteligência Artificial, da Automação e da Internet de todas as coisas, não é de hoje; tal como eu, muitos especialistas escreveram a seu tempo sobre a sobreposição do fascínio à lógica cautelar que este tipo de modelo de governação deveria exigir dos autarcas.

A discussão em torno do conceito de Smart City e o que ele significa para o quotidiano das pessoas, da sociedade e do modelo de gestão urbana do futuro, tem estado em cima da mesa, garantindo adeptos para a causa da Governação inteligente das cidades, mediada por preocupações sustentáveis das políticas. Uma e outra perspetiva podem não ser incompatíveis, mas o apelo é para que se tenha cautela máxima: estamos a falar de investimentos avultados, cujos resultados tem ficado aquém das expectativas. Inovação e gestão integrada dos recursos são pedras angulares da política dos cinco S’s que passou a fazer parte do léxico da governação local em muitas cidades europeias e noutras latitudes, ainda que para alguns, falar de sustentabilidade é mais um ícone do discurso do que da ação. Quem não for capaz de perceber a importância da visão transversal da Sustentabilidade, seja a nível económico-financeiro, social, ambiental, infraestrutural e tecnológico, também nunca perceberá o seu papel no futuro e como ela vai condicionar a sua perceção da ação política. Quem não tiver capacidade de agir em prol do binómio-saúde-ambiente urbano, o futuro não está assegurado. Para esses fica esta pequena reflexão: “por favor pode dizer-me que caminho devo tomar para sair daqui? – Isso depende muito onde quer chegar. Eu não me importo muito para onde. Então não importa que caminho deve tomar”. O dilema é continuar a assistirmos a um volume de discursos que mobiliza fundos financeiros volumosos sem que o quotidiano das pessoas seja afetado positivamente. Continuamos a assistir a uma resistência militante à Mudança como se fosse possível parar o Tempo e pedir uma pausa às alterações climáticas e o que tal significa para o presente e para futuro da humanidade. Este constrói-se no dia a dia com a mobilização das pessoas, pois só elas podem mudar de hábitos, de atitudes, de cultura. No momento em que as tecnológicas avançam com uma segunda versão do modelo das Smart Cities – o Smart City 2.0 –, a mobilização em torno da visão integrada dos desafios, torna-se tão evidente e acutilante, que não se poe esperar outra coisa da classe política, que não a de mudar de rumo. Apesar de se notar uma evolução positiva em muitos autarcas portugueses que perceberam a importância do desafio, outros há, que continuam rendidos à mais pobre das visões políticas: a gestão do poder, como se ele não fosse efémero. Enfim!



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