Espaço do Diário do Minho

Cenas e vistas d’A Brasileira

27 Set 2020
Eduardo Jorge Madureira Lopes

A crise mundial de saúde pública veio tornar algo estranha a leitura de Cenas e vistas d’A Brasileira, como se, de repente, um certo mundo convivial e despreocupado que nele encontramos tivesse subitamente desaparecido, tendo os cafés deixado de ser espaços de permanência demorada e tranquila para se tornarem lugares de breves e receosas incursões. Os estudos de epidemiologia citados no livro, referindo que os indivíduos socialmente integrados tendem a viver mais, reforçam essa estranheza.

Dos cafés mais conhecidos da zona central da cidade de Braga, subsistem, mantendo os traços fundamentais da sua identidade, os dois mais antigos: o Café Vianna, que abriu portas em 1871, e A Brazileira, inaugurada a 17 de Março de 1907 (o s ainda não tinha substituído o z).

Cenas e vistas d’A Brasileira, com textos de Helena Pires, Fábio Marques e Sofia Gomes e desenhos de Pedro Seromenho, oferece uma ajuda inestimável a quem quiser conhecer o café fundado por Adolfo d’Azevedo, um homem de negócios que foi também o vice-cônsul do Brasil em Braga. A obra fala-nos do presente, mas evoca também o período anterior à remodelação realizada no final da primeira década do século XXI.

Explica-nos, além disso, a importância destes espaços essenciais para fazer cidade. Como afirmou Massimo Cacciari, que foi presidente da Câmara de Veneza, “só uma cidade pode ser habitada, mas não é possível habitar a cidade se ela não se dispuser a ser habitada, ou seja, se não ‘der’ lugares. O lugar é o sítio onde paramos: é pausa – é análogo ao silêncio de uma partitura. Não há música sem silêncio”.

Este trabalho é, sobretudo, um “exercício de atenção”. O quotidiano de A Brasileira – que se fazia anunciar num almanaque de 1924 como “Casa especial do café do Brazil”, onde se procedia à “venda e propaganda de produtos brazileiros” – no interior, na sua esplanada e nas ruas circundantes, é observado com vagar e minúcia. O labor inclui esclarecedoras entrevistas aos que trabalham no café e aos que o frequentam. Os diversos pontos de vista complementam-se, incluindo os que nos são oferecidos pela literatura e por distintas áreas do conhecimento.

Cenas e vistas d’A Brasileira refere que, ao contrário de outros cafés, que acolhiam negociantes diversos, A Brasileira era frequentada por padres e por professores. Um conhecido desenho de José Veiga corrobora-o, aqui mostrando um prestigiado professor de Português do Liceu Sá de Miranda, o Senhor Dr. Vaz de Carvalho (meu professor) com uma das singulares chávenas de café em frente.

Apesar de ele apenas nos ser apresentado pela inicial do apelido, reconhecemos facilmente no “Sr. M.” o Senhor Marques. Ele, que está aqui há mais de 30 anos, é do período em que os empregados de mesa aqui permaneciam durante quase toda a vida. Os que por aqui andam há mais anos recordam outros empregados de mesa, como o Senhor Fernando, o Senhor Cândido, aliás também devidamente referido no livro, o Senhor Barbosa e o Senhor Carvalho. O Senhor Raul, que é o derradeiro engraxador bracarense, também é adequadamente mencionado, assim como “a jovem de cabelo colorido” que é, também ela, já, de algum modo, antiga na casa.

O dia-a-dia de A Brasileira foi ficando mais uniforme. Durante muitos anos, transmutava-se ao longo do dia, como se o mesmo café padecesse de surtos heteronímicos. Os fregueses que, por exemplo, vinham ao princípio manhã e os que vinham à noite provinham de universos diferentes. O advento do turismo de massas em Braga contribuiu para criar uma homogeneização da clientela. Em qualquer momento, são os turistas que abundam – agora, compreensivelmente, menos numerosos os provenientes de mais longe.

É possível que o objecto cuja falta foi mais sentida com a remodelação de A Brasileira tenha sido o relógio, a que Helena Pires, Fábio Marques, Sofia Gomes dedicam duas páginas. Ao que está registado, posso acrescentar a lembrança de ser necessário vir de escadote para dar corda a esse relógio, tarefa que era cumprida à noite já próximo da hora de encerramento.

Ela própria objecto de estudo, A Brasileira também pode ser o ponto de observação do exterior. “São múltiplas as cenas que se avistam…”, escrevem os autores, acrescentando uma descrição que nos faz lembrar o extraordinário empreendimento do escritor Georges Perec que, à mesa do Café de la Mairie e em outros pontos da Place de Saint-Sulpice, procedeu a uma “leitura exaustiva de um lugar parisiense” [1]. Apenas descrevendo detalhadamente o que via, interrogou o que o banal nos pode dizer.

Cenas e vistas d’A Brasileira inclui, também, abundante material, tantas vezes aparentemente anódino, que muito nos desvenda sobre um lugar e vários tempos. Sobre, portanto, a cidade de Braga em múltiplas épocas.

[1] In O apodrecimento das sociedades. Amadora: Bertrand, 1977

Nota: Extracto do texto da apresentação do livro Cenas e vistas d’A Brasileira, editado pelo Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade e por A Passeio – Plataforma de Arte e Cultura Urbana, que teve lugar em A Brasileira, ao fim da tarde de anteontem.



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