Espaço do Diário do Minho

Incompetentes, irresponsáveis e ignorantes?

26 Set 2020
Fernando Viana

O conflito de gerações não é certamente de hoje. As gerações mais velhas, olham para os mais jovens e, invariavelmente, depositam poucas esperanças nas qualidades dos mais novos.

Muitos se lembram ainda de, em 1994, Vicente Jorge Silva, falecido muito recentemente, então diretor do jornal Público, num editorial daquele jornal, ter apelidado de “geração rasca” os jovens de 16/17 anos, que na altura contestavam nas escolas e nas ruas das grandes cidades, a realização das provas globais, por via de manifestações carregadas de forte vernáculo.

Passados uns anos, nos idos de 2011, num daqueles deploráveis, mas com grandes audiências, programas de televisão designados de reality shows (penso que seria numa das primeiras edições do celebérrimo Big Brother), lembro-me de ver uma concorrente de vinte e poucos anos, provavelmente um exemplar perfeito da geração rasca caracterizada por Vicente Jorge Silva meia dúzia de anos antes naquele editorial, ter ficado famosa em vários campos, nomeadamente pela total demonstração de falta de conhecimentos, apesar de ter concluído o 12.º ano de escolaridade.

As respostas que dava às questões colocadas pelos apresentadores do programa nas entrevistas que eram feitas aos concorrentes, ficaram famosas e circularam abundantemente pelas redes sociais. Assim, por exemplo, quando questionada no programa sobre qual o maior mamífero vivo na superfície da Terra, respondeu “o dinossauro”. Muitas outras pérolas do género poderiam aqui ser referidas, para gáudio de uns e tristeza da maioria. Aliás, também ficou famoso aquele momento do programa em que os apresentadores, perante a manifesta falta de conhecimentos de Geografia desta concorrente, decidiram ofertar-lhe um globo terrestre, tendo-lhe comunicado que tinham colocado o globo no alpendre da casa, onde ela poderia deslocar-se para o recolher, ao que a jovem retorquiu: “ E pá, onde é que fica o não sei quê pentre?”.

Há quem acredite que, de então para cá a situação se agravou. A nova geração que substitui aquela outra de 1994 (não deixa de ser curioso que a “geração rasca” terá agora os seus 40 e poucos anos, muitos dos quais serão entretanto pais de jovens teenagers), tem vindo a ser apelidada de geração dos “3 i”: “i” de incompetentes, “i” de irresponsáveis e “i” de ignorantes. Na verdade, falando muitas vezes com professores das nossas escolas, de facto é frequente a sua baixa expetativa sobre esta geração que constitui uma importante base da sociedade de amanhã.

Mas será que esta geração que se está a preparar para se tornarem adultos é assim tão incompetente, irresponsável e ignorante?

Não me parece que se possa colocar toda uma geração debaixo de um rótulo tão negativo e pouco inspirador para o futuro que nos espera. Penso que haverá de tudo. Conheço jovens que não se inserem em nenhum desses “is”, mas também reconheço, no contacto que tenho com escolas, que existe um conjunto significativo de jovens que denotam uma evidente falta de interesse, falta de alguns valores, falta de responsabilidade, falta de empenho e de trabalho.

De qualquer forma, a ser assim, em primeiro lugar esta nova geração que se está a formar (como todas as outras que a precederam) é sempre o resultado, o produto do estado atual da sociedade. São sempre os pais, os professores, os decisores políticos, enfim todos nós, os responsáveis pela falta de conhecimentos, de competências e de valores que esses jovens apresentam. Quem é colocado em cheque em primeiro lugar, são os responsáveis pela sua formação e educação. Bem como os decisores políticos que que intervém na definição dos currículos das disciplinas, dos métodos de ensino, da maior ou menor exigência da avaliação. Sou claramente a favor de um elevar do standard de exigência, de estudo, de trabalho, de responsabilidade.

Não, não sou apologista de uma onda de facilitismo, de pouca exigência, de “o que importa é que sejam felizes”. Mas o que é isso de ser-se feliz?

Se ser feliz é não estudes se não te apetece; não vás às aulas se não queres; não trabalhes para que não te canses, eu não quero esse tipo de felicidade.

É muito frequente ver e ouvir decisores políticos a exaltarem políticas hedonistas, de felicidade garantida para todos. Basta votar no partido X que o partido encarrega-se de garantir a felicidade a todos.

Desenganem-se. Quem acreditar que, independentemente do esforço, trabalho e investimento pessoal, o futuro será fácil e risonho, arrisca-se seriamente a ser infeliz o resto da vida. E, como reza a canção “hoje é o primeiro dia do resto da minha vida”.



Mais de Fernando Viana

Fernando Viana - 17 Out 2020

O chamado Estado Social de Direito, com grande preocupação na defesa dos tradicionalmente referenciados grupos sociais mais frágeis nas relações sociais, também deu grande importância aos consumidores, incluindo-os num triângulo em que os outros vértices são os trabalhadores e os inquilinos habitacionais. Os direitos dos consumidores encontram-se consagrados na nossa Constituição desde 1982. A primeira […]

Fernando Viana - 10 Out 2020

Vivemos num mundo de contradições. Aos países ricos, desenvolvidos, com elevado rendimento e uma população envelhecida, doente e maioritariamente obesa, opõem-se os países subdesenvolvidos, com elevado crescimento demográfico, donde resulta uma população jovem, com baixos níveis de rendimento e condições de vida difíceis. O elencar das contradições do mundo em que vivemos é infindável. É […]

Fernando Viana - 3 Out 2020

O modelo de sociedade em que estamos inseridos há muito que cortou relações com a Natureza, encaminhando a humanidade para um beco sem saída, em que é a sua própria sobrevivência que está em causa. De facto, quando se afirma que somos a espécie animal mais inteligente, mas, por outro lado, quando analisamos o comportamento […]


Scroll Up