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Presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes, Manuel Pinheiro

Luísa Teresa Ribeiro
25 Set 2020

Depois de uma previsão inicial de um cenário negro nas vendas de Vinho Verde devido ao confinamento, o setor tem vindo a recuperar, havendo agora a expetativa de que possa chegar ao fim do ano sem perdas significativas. O setor aproveitou o apoio à destilação, mas discorda da proibição da venda de bebidas alcoólicas a partir das 20h00. Estas são algumas das ideias avançadas pelo presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes, Manuel Pinheiro, em plena época de vindimas, das quais se espera que venha a resultar um ano de excelente qualidade.

DM – A Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes tem tido uma série de iniciativas, como o Dia de Portas Abertas, o cinema nas vinhas ou o contacto com os produtores. Esta atividade significa que a Comissão dos Vinhos Verdes quer ir mais além do que o aspeto burocrático da atribuição de selos e classificação dos vinhos?

MP – Sem dúvida. O ponto de partida de uma entidade como a nossa é garantir que o vinho é genuíno. Quem pega numa garrafa de Vinho Verde pode ter a certeza de que estão ali são as castas, as uvas da nossa região, o que faz com que este seja um vinho único no mundo. O nosso trabalho é, no entanto, muito do que isso. Temos de fazer o trabalho de promoção e de formação. Tudo isto contribui para preparar o pós-Covid-19. Se este ano é muito difícil e temos de lutar, para o ano os mercados vão-se abrir muito mais. Precisamos, por isso, de ganhar posição para no próximo ano estarmos mais avançados. As dificuldades que temos devem desafiar-nos para encontrarmos novas respostas.

 

DM – Como é que está o panorama da região após o período de confinamento, que foi muito difícil para alguns produtores?

MP – A primeira metade do ano foi particularmente difícil para os vinhos de maior valor e para os que se comercializam na restauração e nas garrafeiras. Os supermercados funcionaram bastante bem, pois estiveram abertos e com stock. A exportação também funcionou bastante bem, embora com um ou dois mercados a registarem dificuldades. Neste momento, estamos com as vendas um bocadinho abaixo do ano passado, mas nada de muito sensível. Em termos comerciais, a grande mensagem deste ano é de disparidade, de desigualdade, mais do que de perdas gerais significativas. Há produtores que estão a vender muito bem e outros que perderam 20, 30, 40 por cento. Quem vendia só para restaurantes está a ter um ano muito difícil. Quem estava nas grandes superfícies e na exportação está a ter um ano mais confortável.

 

DM – É possível fazer uma quantificação?

MP – Quem estava nos restaurantes perdeu certamente mais de 20 por cento das vendas, quando chegar ao fim do ano, mesmo recuperando agora no final. No geral, no branco, estamos cerca de 4 por cento abaixo do ano passado, segundo dados de agosto. No rosado estamos um bocadinho acima do ano passado. Vamos ver como vai ser o outono. Em todo o hemisfério Norte os números da Covid-19 estão a piorar, por isso as pessoas vão-se retrair mais de sair de casa. Vamos ver como é que se comporta o consumo doméstico para compensar aquilo que não se consome nos restaurantes.

 

DM – Traduzindo essa percentagem em dinheiro, de quantos milhões é que estamos a falar?

MP – Quando começou a crise, estimámos um cenário muito mais negro, estimámos na altura perder cerca de 15 milhões de euros de vendas de Vinho Verde. Realmente no final do ano, não vai ser assim. Vamos perder um valor muito pequeno, que andará em um milhão de euros, se tanto. Os números globais não nos preocupam. Preocupam-nos alguns produtores em concreto, que tiveram dificuldades enormes. Para fazer face às dificuldades, há as ajudas que o Estado disponibilizou, como o lay-off e uma ajuda que foi feita especificamente para o setor do vinho, que é o apoio à destilação. A nossa região destilou dois milhões e 500 mil litros de vinho. Isso retirou algum vinho do mercado. Estamos em mais uma vindima e o stock de vinho na região está praticamente igual ao do ano passado. Se a economia no inverno não for muito penalizada pela Covid-19, teremos passado este ano de alguma forma com algum conforto.

 

DM – Temem uma segunda vaga?

MP – Se no hemisfério Norte as economias se voltarem a fechar, pode ser um grande problema, sobretudo, mais uma vez, para os restaurantes. Entre o vinho, a restauração e a hotelaria há uma parceria enorme. Temos o turismo, os restaurantes, os hotéis e os bares como nossos parceiros e canais muito importantes. Precisamos também de defender essa atividade porque cada restaurante que encerra é mais vinho que não se vende e isso preocupa-nos.

Não faz sentido proibir a venda de bebidas alcoólicas às 20h00

 

 

DM – A restrição à venda de bebidas alcoólicas a partir das 20h00 pode ser um problema?

MP – Nem percebemos bem que sentido é que faz que alguém que consiga ir ao supermercado antes das 20h00 porque saiu do emprego mais cedo consiga comprar vinho, mas quem saiu mais tarde já não pode ir a um supermercado comprar vinho. Isso é uma lei seca, fundamentalista, que não faz sentido nenhum. É evidente que as pessoas têm de ser moderadas no consumo, mas isso não tem a ver com a Covid-19, mas com o facto de o vinho ter álcool. O consumo com moderação é essencial. O facto de bebermos uma bebida alcoólica, qualquer que ela seja, não nos deve levar a relaxar nas medidas de proteção, como o distanciamento ou o uso de máscara. Daí a proibir a venda a partir das oito horas parece-nos que não faz sentido nenhum. O setor inteiro está contra essa medida.

 

DM – Consideram que esta questão deveria ser revista?

MP – Sim, muito claramente. Não faz sentido proibir a venda a partir das oito da noite. Quem chega cinco minutos antes compra o que quer, quem chega depois não pode comprar meia garrafa. Não nos parece que isso faça sentido algum.

 

DM – Em relação aos apoios, os produtores e o setor fazem uma avaliação positiva ou há alguma alteração que considerem necessária?

MP – A medida de destilação que o Governo lançou era generosa e funcionou bem, de tal modo que ainda ficou orçamento disponível. Ainda era possível destilar mais vinho se fosse necessário. Os problemas que há neste setor são comuns a outros, designadamente de tesouraria, agravado pelo facto de estarmos a falar de vinha. Se houver confinamento, a vinha não sabe que há confinamento, continua a evoluir ao longo do ano, precisa de ser podada, tratada e vindimada. Os produtores de vinhos não podem recorrer ao lay-off porque a mesma equipa que uma parte do ano está a engarrafar, na outra parte do ano está a podar ou a vindimar.

 

DM – Que expectativas há para estas vindimas?

MP – Tudo indica que vai ser um ano de excelente qualidade e isso é muito bom. Tivemos um clima que tornou um bocadinho difícil o tratamento do míldio no início do ano, mas depois desenvolveu-se bastante bem. As últimas semanas têm estado fantásticas. Esperamos que as vindimas sejam com tempo seco, o que é maravilhoso para as uvas, mas também para todos, porque são 15 mil pessoas a vindimar. Temos grandes uvas, podemos ter grandes vinhos. No que diz respeito à quantidade, estamos à espera de uma colheita muito próxima da do ano passado, talvez um ou dois pontos acima. É uma colheita que nos dá algum conforto. Era mau se fosse uma colheita excecional porque não haveria mercado para isso.

 

 

DM – Os viticultores tiveram de adaptar algumas práticas de vindima ao tempo de pandemia?

MP – A Associação Nacional de Regiões Demarcadas emitiu um documento que vai servir de guia para as vindimas em todo o país e que vai obrigar a muitos cuidados, sobretudo o distanciamento entre as pessoas que vão trabalhar na vindima. É tradicional que a vindima, em todo o Portugal, seja um momento de convívio, até porque há muitas festas populares nesta altura. Este ano não pode ser. A vindima tem de ser um momento de trabalho, em que se colhem as uvas, se levam para a adega e depois cada um segue para sua casa.

 

DM – Tem havido produtores a aproveitar o Programa VITIS para renovar as vinhas. Como é que está o panorama das vinhas na região?

MP – A Região dos Vinhos Verdes tem cerca de 15 mil hectares de vinha. Desses, um pouco mais de metade, cerca de 8 mil hectares, já estão reconvertidos, foram renovados nos últimos 20 anos. As vinhas renovadas, com o apoio do Programa VITIS, produzem mais, têm menores custos e adaptam-se melhor ao clima. Todos os anos se renovam 600, 700, às vezes mais hectares de vinha. Este movimento é muito importante porque permite à região renovar os seus vinhos, mas mantendo-se fiel às castas tradicionais. Temos novas vinhas de Loureiro, Alvarinho, Avesso, Azal e Trajadura. São vinhas novas, competitivas, mas de castas tradicionais da região, dando os Vinhos Verdes únicos no mundo. É fundamental esse equilíbrio entre a inovação e a tecnologia, por um lado, e a defesa da tradição, por outro, para que o Vinho Verde continue a ser único.

 

 

DM – As sub-regiões estão a manter as castas típicas ou estão a inovar?

MP – Está-se a fazer alguma inovação. A casta Loureiro, que era sobretudo do Vale do Lima, está-se a espalhar por toda a região. A casta Arinto, que se fala menos no Vinho Verde, tem vindo a crescer muito, e é uma casta competitiva. O Alvarinho está sobretudo em Monção e Melgaço, plantando-se pouco no resto da região. Outra casta que está a crescer é o Azal. Nos rosados, entre o Espadal, Padeiro de Basto, há duas ou três castas que têm crescido. Precisamos de mais matéria-prima de rosados, que hoje são o Vinho Verde que está a crescer mais. Vamos ter mais vinho verde rosé nos próximos anos.

 

DM – Há sub-regiões mais pujantes e que estejam a puxar pelas outras, levando o Vinho Verde para o mercado?

MP – Temos nove sub-regiões, mas em boa verdade poucas se afirmam pelo seu nome próprio. Depois do sucesso que tem sido Monção e Melgaço, vamos ter outras regiões também com bons resultados e que vão continuar a aparecer, seja o Vale do Lima, seja a região de Basto, que é uma região muito pouco conhecida, mas que tem vinhos maravilhosos, em Celorico e Mondim, seja a região de Amarante ou a de Baião. Aos poucos vamos começando a ver que não há só Vinhos Verde, há muitas micro-regiões dentro do Vinho Verde.

 

Próximo passo é afirmação internacional da sub-região Monção e Melgaço

 

DM – Depois da polémica em torno do alargamento do Alvarinho, agora que o processo está a avançar, este é o caminho certo?

MP – Não tenho dúvida nenhuma que sim. Em primeiro lugar, Monção e Melgaço libertou-se de ser apenas o sítio do Alvarinho. Há muitos alvarinhos em vários pontos de Portugal e do mundo. Monção e Melgaço é mais do que isso. Todas as regiões demarcadas portuguesas têm sub-regiões, mas Monção e Melgaço é a única sub-região de Portugal que faz a sua promoção e que tem o seu lugar no mercado. Monção e Melgaço passou de ser um local onde se fazia Alvarinho para ser o início de algo muito importante, para ser a primeira sub-região que é promovida como tal. Já vamos encontrando nas revistas, nos restaurantes e em algumas lojas Monção e Melgaço com a sua identidade própria. A sabedoria está em Monção e Melgaço puxarem pelo Vinho Verde, mantendo esta ligação. Esta ideia de que Monção e Melgaço têm vinhos de grande qualidade e valor é benéfica para todo o Vinho Verde. É um negócio em que as duas partes ficaram a ganhar bastante. Já isso tem sido claro nos últimos anos, na avaliação que fazemos de vendas e de valor, e vai ser mais nos próximos anos, à medida que o cliente reconheça que de Monção e Melgaço vêm grandes vinhos.

 

DM – A nível da criação de valor, a sub-região Monção e Melgaço ficou a ganhar tanto no preço da uva como do vinho?

MP – A cada seis meses fazemos uma avaliação do acordo. Em Monção e Melgaço o preço da uva mantém-se, não desceu. O mercado cresceu cerca de 30 por cento desde o dia do acordo. É um crescimento significativo. O balanço naturalmente que é positivo. A região está em paz com o Acordo do Alvarinho. Esse é um passo que ficou para trás, sendo que agora temos um desafio ainda maior, que é o de promover esta sub-região e de lhe dar posição no mercado. Atenção que ela é muito conhecida e prestigiada em Portugal, mas ainda não o é no estrangeiro. Esse é o passo novo que temos que dar.

DM – O passo seguinte é a afirmação internacional de Monção e Melgaço?

MP – Sim, do qual ainda está todo o caminho por fazer.

 

DM – A “White Experience” é para manter com este cenário de pandemia?

MP – Nos últimos dois anos reunimos em Monção e Melgaço alguns dos melhores vinhos brancos do mundo, para posicionar a fasquia muito alta para esta sub-região. Este ano não podemos fazer o evento nos mesmos termos. Vamos ter um evento de forma diferente, num modelo que tem alguma proximidade com o Dia de Portas Abertas, ou seja, vamos ter os produtores de Monção e Melgaço abertos para receberem visitas. Em cada produtor vão estar disponíveis os seus vinhos e vinhos de outro ponto do mundo, para serem provados lado a lado.

 

 

DM – Colocando a tónica que em Monção e Melgaço se produzem alguns dos melhores vinhos brancos do mundo?

MP – Exatamente. Monção e Melgaço não tem que se preocupar com a concorrência de outros alvarinhos. Tem é que se afirmar por ser uma grande região de vinhos brancos em Portugal e no mundo.

 

DM – Para a Região dos Vinhos Verdes, é uma mais-valia ter veteranos conceituados, mas também jovens enólogos e viticultores que estão a afirmar-se com propostas inovadoras?

MP – Está em causa a procura do futuro. Temos que ir buscar gente nova, temos que a cativar, de usar novas tecnologias, mas também temos que perceber que o Vinho Verde não se pode transformar num produto industrial. Temos de recuperar e defender o que é nosso. Na Estação Vitivinícola Amândio Galhano, em Arcos de Valdevez, estamos a recuperar castas que foram abandonas e que queremos que sejam plantadas novamente. Queremos ir à frente inovando, mas preservando aquilo que é único. O Vinho Verde do futuro será diferente do de hoje, mas não pode ser igual aos outros, tem que encontrar o seu próprio caminho. Para isso é fundamental esse equilíbrio de duas gerações a trabalhar no setor.

 

DM – As adegas que existem na Região dos Vinhos Verdes têm sabido estar à altura do desafio da qualidade?

MP – O modelo cooperativo não tem nada de errado, existe em todo o mundo em várias áreas, como seguros, construção ou banca. O que ele precisa é de ser cada vez mais profissional. Na região, temos adegas como Monção, Ponte de Lima ou Ponte da Barca, que dão um exemplo admirável do que é boa gestão e bons resultados. Têm excelentes vinhos, distribuem resultados aos sócios e pagam bem as suas uvas. Isso prova que o modelo cooperativo é competitivo. Há poucos anos, o melhor vinho branco de Portugal premiado pela Revista de Vinhos foi um vinho de Monção. O melhor vinho branco do país ser de uma cooperativa desta região é a prova de que estão no caminho certo.

 

DM – Depois de iniciativas tão criativas como levar o cinema às vinhas, que podemos esperar da Comissão de Viticultura?

MP – Para o ano, podemos esperar que o festival de cinema nas vinhas seja bastante mais alargado. Foi o primeiro ano que o fizemos. Foi um sucesso ver bom cinema ao mesmo tempo que se provam ótimos vinhos. Para o próximo ano, vamos ter cinema em mais locais da Região dos Vinhos Verdes. Queremos que a iniciativa do Dia de Portas Abertas avance. Vamos alargar as caminhadas nas vinhas, uma iniciativa que movimentou alguns produtores e queremos que movimente mais para o ano. Até aqui fazíamos a promoção para a exportação, para os supermercados e para as garrafeiras – e não vamos deixar de a fazer –, mas há uma nova área, que é a promoção do território. Temos de nos articular mais com os produtores e com as autarquias, para levarmos as pessoas ao território. Aí vamos ver coisas novas com certeza absoluta, ligando por exemplo as caminhadas e a arte. Vamos querer enriquecer os produtores e levar lá os clientes.

 

[Entrevista publicada na edição impressa do Diário do Minho de 11 de setembro]




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