Espaço do Diário do Minho

O direito de ser eu

24 Set 2020
Silva Araújo

1. Por muito que nos custe admiti-lo a verdade é que, no mundo em que vivemos, a avidez do lucro como que impõe o que deve ser consumido. Tirou-nos o trabalho de pensar. Dispensou-nos de pensar e, sem nos apercebermos disso, delegamos nos outros a capacidade de decidirem por nós.

A sociedade de consumo apresenta-nos tudo programado. Basta que digamos: tenho este problema e, de imediato, nos apresenta soluções.

Quer gostemos quer não, aceitamos decisões que outros tomaram, porque habilidosamente nos convenceram de que parece mal não alinhar e damos má nota de nós mesmos se destoarmos do padrão preconcebido. Padrão que se pretende servir de nós a pretexto de nos servir. Padrão que faz de nós autómatos.

2. Casos destes acontecem em muitos momentos da nossa vida individual e comunitária. Até no contexto de celebrações religiosas que deviam ser vividas com muita consciência e muita concentração.

Há empresas que pensam e decidem por nós.

Agora usa-se. Agora é assim. Estas são duas expressões que se ouvem com muita frequência.

Quem determinou o que agora se usa ou agora é assim?

Essas decisões são tomadas por quem deseja ver progredir os negócios à nossa custa. Não tenhamos ilusões.

O agora usa-se, o agora é assim, de outro modo parece mal, faz, por exemplo, com que na celebração do casamento se centre a atenção no secundário descurando o essencial.

Faz com que se usem toiletes mais que inconvenientes. Se assista ao espetáculo das calças rotas, dos adereços no umbigo ou no nariz, das tatuagens e de outras coisas mais.

3. É urgente termos tempo para parar. Para refletir. Para ver se, na vida, andamos pelo próprio pé ou somos levados ao colo de quem se serve de nós.

Ao programar uma festa que a pessoa se concentre e pense no que quer e como quer. E mais nada. Quem lhe apresenta programas já elaborados que os guarde.

Precisamos de recuperar o direito de mandarmos em nós mesmos. É isto o que quero, é isto o que se faz, é isto o que compro.

Infelizmente o que queremos nem sempre existe. É como se fôssemos a um restaurante e nos dissessem: o que temos é petinga com arroz de tomate. Se não quer, arranje-se. Mas às vezes, sozinhos, não nos podemos arranjar.

Colocámos, meus amigos, a nossa vontade nas mãos de outros, e isto, em minha opinião, é muito grave. Desumaniza-nos. Deixamos que nos tratem como robots ou manequins.

4. Lembro muitas vezes o Cântico Negro de José Régio: não vou por aí.

A sociedade de consumo roubou-nos o direito de sermos diferentes. De afirmarmos a nossa personalidade. Converteu-nos em marionetas que o lucro maneja de acordo com as suas conveniências.

Reconquistemos a nossa dignidade e a nossa independência. Recuperemos o direito de sermos nós. Reivindiquemo-lo. Isto exige a força necessária para remarmos contra a maré. Mas vale a pena recuperarmos o direito de não sermos peça de engrenagem.

Que eu seja eu. Que não tenha vergonha de ser diferente; de destoar no meio de tantos que vão na onda.

5. A sociedade de consumo condiciona a nossa liberdade. Dá-nos a volta. Leva-nos a querermos o que querem que queiramos. Impede-nos de sermos felizes à nossa maneira mas segundo o modelo que nos impingem.

6. Numa sociedade que cada vez mais se paganiza exige-se dos cristãos a coragem de sermos diferentes. De transformarmos e não nos deixarmos transformar. Só assim cumpriremos a vontade do Mestre, desejoso de que atuemos como luz, fermento, sal.

7. Tudo isto é uma teoria muito linda, dirão.

Aceito que me digam que estou a sonhar. Que quem se não sujeita ao que decidiu a sociedade de consumo arrisca-se a não ter quem o sirva. A não ter no mercado o que pretende. Mas preocupa-me a escravatura que nos é imposta.



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